terça-feira, 11 de setembro de 2012

... encore un effort!


Não era bem uma livraria, era uma daquelas lojas de terra pequena, onde se vende tudo, desde lotaria a jornais, de tabaco a coisas de papelaria. E até livros. Foi ontem à tarde, em Tarascon (exatamente!, a terra do Tartarin que Daudet colocou a caçar leões no Norte de África). O título do livro de Sade (não, não é a cantora, é o marquês) chamou a minha atenção. Sinal dos tempos?

Num impulso súbito, embora soubesse que, em qualquer estante, em qualquer sítio, tenho um exemplar, tive a tentação de comprar o "Français, encore un effort...". Mas logo cheguei a uma conclusão: se achamos quase natural que alguns pareçam ter elegido Sade como seu clássico, então, definitivamente, só merecemos Sacher-Masoch.

Angola: Oposição abriu processo legal de contestação aos resultados das eleições

Em Angola, a oposição abriu um processo legal de contestação aos resultados das úlitmas eleições. Com a deposição dos três requerimentos, no 2º Cartório Notarial da Comarca de Luanda, a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) dispõe agora de 48 horas para responder aos partidos promotores da queixa, que poderão recorrer da decisão para o Tribunal Constitucional.

Trabalhistas e liberais empatados nas sondagens

A três dias das legislativas holandesa, os líderes partidários saíram as ruas em diferentes regiões do país para tentar convencer o alto número de indecisos, que chega a um terço do eleitorado, e num cenário de total indefinição sobre os rumos políticos do próximo governo.

De onde vem esta esquerda radical?

Um dos seus princípios foi justamente o de apenas se apresentar a eleições locais depois de desenvolver campanhas setoriais nessas localidades e intervir militantemente junto das populações. Os seus eleitos assumem o compromisso de manter o salário que tinham e entregar o resto às finanças do partido.

Austeridade e euroceticismo dominam campanha

O governo holandês já se demitiu há 4 meses, mas só esta semana é que se realizam as eleições gerais. Uma eleição marcada pelo regresso dos partidos da esquerda, e um primeiro ministro que quer uma segunda tentativa para completar um mandato depois de não ter conseguido chegar a um acordo para adoptar o programa de austeridade.

Confusão entre Luisão e árbitro interrompe amistoso do Benfica

Juiz desmaia após discussão com zagueiro brasileiro, que nega agressão

Globo

Irritado com o último plano de austeridade anunciado por Passos Coelho, António Nogueira Leite, seu ex-conselheiro, atual administrador da CGD, deixou uma solene promessa, escrevendo na sua página no Facebook.

PODE IR, SEM QUALQUER PROBLEMA POIS OS SALÁRIOS MILIONÁRIOS QUE GANHA NAS
DIVERSAS EMPRESAS PARA AS QUAIS TRABALHA, DÃO--LHE UMA REFORMA NÃO DOURADA
MAS DE PLATINA!!!
"Se em 2013 me obrigarem a trabalhar mais de 7 meses só para o Estado,
palavra de honra que me piro, uma vez que imagino que quando chegar a altura
de me reformar já nada haverá para distribuir, sendo que preciso de me
acautelar. É um problema que é só meu, mas esta não é a condição de homem
livre!", afirmou.
No mesmo texto acrescentou: "Em 2012 o meu dia de libertação de impostos foi
1 de Agosto. Ou seja, até esse dia tudo o que ganhei entreguei ao Estado. É
certo que a queda abrupta de salário contribuiu para tal e ninguém me
obrigou a mudar de poiso. Isto só no que respeita a impostos directos."
Comentando esta tomada de posição, Francisco Louçã escreveu, também no
Facebook: "Eu fico. Porque é preciso enfrentar o governo, correr com a
troika, não desistir de recuperar os salários e as pensões. É preciso vencer
esta elite de Nogueiras Leites que, depois de recomendarem a redução dos
salários dos outros e a protecção dos seus próprios privilégios, se atrevem
a dizer que fogem."
Louçã afirma que Nogueira Leite goza na CGD da cláusula especial que lhe
permite ganhar mais do que o primeiro-ministro.
http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=2763358

Um homem foi detido para identificação no Porto, após fotografar um carro estacionado no passeio que estava ao serviço do ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, noticia a TVI.

Vamos ver se entendo: o ministro às segundas e sextas costuma estar no seu escritório de advocacia no Porto? Que governação faz este ministro se só trabalha, nos assuntos do País às terças, quartas e quintas? Será que este ministro só recebe o equivalente ao que trabalha? Se não se justifica trabalhar tanto porque a Defesa é um ministério e não uma subsecretaria de estado? Um ministro, em Portugal pode andar de carro do Estado a fazer a sua vida privada? A PSP preocupa-se que um cidadão tire fotos de um carro (mesmo que descaracterizado da PSP que, por isso mesmo, qualquer cidadão não sabe) em vez de estar a preocupar-se com a segurança geral dos cidadãos, dos bens, etc.?

“O carro, um Alfa Romeo preto que pertencia à PSP mas estava descaracterizado, estava no passeio da rua do escritório de advocacia de Aguiar-Branco. O homem, também advogado, decidiu tirar uma fotografia com o telemóvel, tendo sido abordado e detido para identificação por agentes da PSP. O ministro, refere a TVI, pode fazer uso da segurança da PSP mesmo em situações particulares, mas não pode estacionar em cima de um passeio. Segundo António Vilar, o advogado identificado pela polícia, é frequente o carro ao serviço do ministro estar às segundas e sextas-feiras parado naquele local. À TVI, o gabinete de Aguiar-Branco confirmou que o governante esteve esta tarde no Porto.” Publico

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Reportagem: o intruso da tenda 3009. Parque de campismo de Almada.

Acampámos uma semana no Parque de Campismo da Caparica. Para quem vê de fora, o enorme recinto parece um campo de refugiados, um bairro da lata ou uma penitenciária. Na realidade, são duas mil habitações rudimentares pertencentes aos sócios do CCCA, encavalitadas umas em cima das outras num terreno público de 12 hectares. Campistas só havia um: o repórter da revista 2. TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA 2, DE 26 DE AGOSTO DE 2012

Entrei na recepção, tirei uma senha, e quando chegou a minha vez disse à jovem no guichê que queria acampar.
“Só com carta de campista”, objectou ela. “É sócio do CCCA [Clube de Campismo do Concelho de Almada]?” Se não, teria de me fazer sócio de outro clube, o Benfi ca ou o Sporting, sugeriu, para requisitar a carta de campista.
“Por que não do próprio CCCA?”, alvitrei. Difícil. Só se um sócio me propusesse, e ele precisaria de me conhecer bem. Depois, a proposta seria afi xada 15 dias, durante os quais qualquer sócio teria oportunidade de aduzir objecções à minha entrada no clube. No caso de não haver nenhuma, o requerimento subiria à direcção. Quando houvesse oportunidade, o presidente do conselho director reunir-se-ia com o secretário do conselho, para apreciarem o pedido. A decisão dependeria então de factores como a antiguidade do sócio proponente, a idoneidade e o comportamento desse sócio, bem como de uma avaliação das características do candidato. Além de tudo isto, a admissão de sócios está interrompida, por decisão especial da direcção, de 1 de Julho a 12 de Agosto.
“Vejo que não me querem mesmo como sócio do clube”, concluí.
“O Benfi ca ou o Sporting”, voltou a aconselhar a funcionária, sem qualquer expressão.
Optei pelo Automóvel Clube de Portugal, através do qual obtive a carta de campista. Apresentei-me no Parque da Caparica com o prestigioso documento. Surpresa: não havia vagas. Também não era possível fazer reservas. Era chegar e confiar na sorte. Após várias tentativas, havia fi nalmente um lugar: o número 800. Fui autorizado a vê-lo, embora o motivo da gentileza da funcionária fosse óbvio: acreditava que eu odiaria o sítio e iria embora. Afi nal era pior: eu realmente odiei aquele cotovelo de areia suja atrofiado entre a casa de banho e três roulottes, mas quando regressei à recepção para dizer que o aceitava, já tinha sido ocupado.
A minha sorte foi ter percebido que um casal de franceses, na única zona realmente reservada a tendas (com capacidade para quatro), se preparava para partir. Falei com eles e fiquei à espera que desmontassem a tenda, em cujo lugar armei a minha, um pequeno iglô de 35 euros. Quando fui registar-me, o facto estava consumado. Atribuíram-me o número 3009, mediante o pagamento de duas noites em avanço: uma tenda e um campista, sete euros e dez cêntimos por noite. Se incluirmos o carro, estacionado à porta da tenda, custa mais quatro euros por noite. Nada mau, para uma residência em cima da praia.
(A REPORTAGEM FOTOGRÁFICA DE ENRIC VIVES-RUBIO: CLIQUE AQUI)
Antes de sair da recepção reparei num pormenor: havia vários impressos disponíveis num placard. Um para a proposta de novo sócio, outros para inscrição nos vários torneios e um para… pedido de autorização para obras! Obras numa tenda? Decidi não fazer mais perguntas e dirigi-me ao meu alvéolo.
O local, na chamada Zona Verde, fi cava junto à porta de saída para o areal, já em cima das dunas. O meu primeiro acto como campista foi sair pela porta, apresentando ao guarda o cartão de utente do parque, para ir dar um mergulho no mar. A água estava morna e transparente, e a multidão de banhistas dispersava-se pelo imenso areal.
Voltei, apresentando o cartão ao guarda, tomei um duche e sentei-me à porta do iglô a observar o parque. O recinto tem uma área de 12 hectares e é cercado por um muro alto, encimado por arame farpado. Ao centro, há uma larga avenida, com um parque de estacionamento em espinha entre duas filas com 25 enormes bungalows brancos e novos: as Unidades Complementares de Alojamento.
Para cada um dos lados da avenida (a que os locais chamam a “espinha”), estendem-se os dois mil alvéolos, constituídos por uma roulotte e um avançado. São todos idênticos e distam entre si, na maior parte das zonas, cerca de um metro, ou menos. A maioria dos alvéolos, ou “unidades de alojamento”, está cercada por outros alvéolos por todos os lados, ou tem a entrada voltada para um “carreiro”, uma espécie de rua com pouco mais de um metro de largura. Por esse motivo, quando um campista pretende retirar a sua roulotte (o que é raro acontecer), a operação tem de ser efectuada com uma grua. No momento havia, segundo a direcção, cerca de sete mil pessoas no parque. Na sua esmagadora maioria, sócios do CCCA, uma vez que só eles têm acesso ao recinto, com excepção da Zona Verde, onde, na prática, como pude confi rmar, só há lugar para quatro tendas pequenas. O resto da Zona Verde está ocupado em permanência (durante meses ou anos) por tendas grandes pertencentes a sócios.
Do meu observatório foi desde logo evidente que os campistas cumprem rotinas muito semelhantes: de manhã vão à praia; entre as 12h e as 13h voltam para o almoço, que dura entre três e quatro horas e consiste em churrascos de peixe confeccionados no grelhador a carvão, que todos têm à porta do alvéolo; a seguir (geralmente), as mulheres vão lavar a loiça (os homens tiveram a cargo o barbecue); praia outra vez, não por muito tempo; às 17h30 é preciso regressar para lavar os caracóis do lanche; à noite, outra vez churrasco, mas agora de carne: febras, costeletas ou entrecosto; mais tarde, é a hora dos petiscos e das festas. Tanto ao almoço como ao jantar, é frequente ver dez ou vinte pessoas à mesa, pois os amigos ou familiares convidam-se uns aos outros.
Nos tempos intermédios, há jogos — vólei, básquete ou andebol para os mais novos, cartas, dominó ou malha para os homens mais velhos. As mulheres cuidam das plantas ou frequentam aulas de ginástica rítmica ou dança hip-hop.
Não faltam passatempos num parque que tem dois campos de jogos, um anfi teatro para “fogo de campo”, vários parques infantis, um salão de convívio, salas de bilhar, matrecos e pingue-pongue, aulas de ginástica e dança, teatro, bailes, campeonatos de BTT, torneios de sueca, aulas de informática para idosos, uma biblioteca, um centro de juventude, dois restaurantes, três cafés, três supermercados, um talho, uma peixaria e até uma roulotte de farturas. Tudo parece correr bem, todos andam felizes e todos se tratam por "companheiro".
Reparei, no entanto, que uma grande quantidade de homens com walkie-talkies circula pelo parque. Uns vestem a farda da empresa de segurança Vigiexpert, outros andam à paisana.
O tratamento por “companheiro” não me pareceu um gesto de hipocrisia. A afabilidade, a tolerância e o auxílio entre os campistas são evidentes. Na minha segunda noite resolvi sair, levando o carro. Quando voltei, pouco depois das 22h, havia uma fi la interminável à entrada. “Não há lugar para mais carros”, explicou-me um dos homens com walkie-talkie.
“Mas eu paguei por um lugar de carro”, protestei.
“Não importa. Quando o limite de carros é atingido [700, vim a saber], não entram mais. É preciso esperar até que saia algum.”
Esperei uma hora e consegui entrar, à tangente. Porque, à meia-noite em ponto, quem não entrou fi ca de fora. Os portões fecham-se e é preciso estacionar na estrada. “Companheiro, lamento, não entra mais ninguém.”
“OK, companheiro. Até amanhã.” Nem um protesto.
No dia seguinte, fui a Lisboa. Dormi em casa e regressei ao parque, não de carro, mas de bicicleta. Entrei alegremente, exibindo o cartão, “boa tarde, companheiro”, pedalei em direcção à minha tenda. Passavam cinco minutos das 20h. Ouvi alguém gritar atrás de mim. “Ei! Desmonte! Já passa das oito horas!” Olhei em redor, ostensivamente. Automóveis circulavam em todas as direcções, dentro do parque. Faziam-no permanentemente, até à meia-noite. “Os carros podem circular e as bicicletas não?”, balbuciei. “Ordens!” Obedeci. Comportei-me sempre como um companheiro exemplar, e por isso não merecia o que me fizeram a seguir.
Como só tinha pago duas noites, ao terceiro dia fui à recepção para liquidar mais cinco. Que não, declarou o funcionário. Pagaria a totalidade no fim. Regressei descansado ao alvéolo, que estava um forno sob a torreira do sol.
“Boa tarde, companheiro”, cantarolei ao porteiro, quando saí para a praia.
“Tenha cuidado. Olhe que vieram aí para lhe desmontar o material”, disse ele. Mas só percebi que falava a sério quando, no regresso, declarou, agora num tom realmente dramático: “Tenho ordens para lhe apreender o cartão.” Deveria dirigir-me imediatamente à secretaria, onde a documentação me seria devolvida. Lá obedeci, como sempre. A meio do caminho, fiz um desvio para ir à casa de banho. Imediatamente surgiu atrás de mim um segurança de bicicleta, em pedalada de grande urgência: “É o senhor da tenda 3009? Tem de se dirigir imediatamente à recepção!”
“Estou a caminho, mas vou só à casa de banho…”
“Não pode. Há uma casa de banho na recepção. Aliás, o senhor [já não era um companheiro] nem devia estar no parque, porque não pagou. Tenho ordens para o levar imediatamente à recepção.”
“Por que me está a tratar dessa maneira? Quem deu essas ordens?”
“Não lhe posso dizer de onde vêm as ordens”, disse o segurança, assumindo um ar de agente secreto. “É que não lhe vou mesmo dizer de onde vêm as ordens”, sublinhou, dando a entender que nem sob tortura revelaria a fonte.
Na recepção, foi-me explicado que, como só tinha pago duas noites, não podia estar no parque. Que me tinham procurado, como não me encontraram, tinham dado ordens para desmontar o material. Que o material não podia ficar abandonado, sem o campista lá dentro.
Perguntei se podia abandonar o “material” para ir à praia. Que sim, “mas só se tiver pago todas as noites”. Argumentei que tentara pagar, mas só acreditaram quando o próprio funcionário responsável pela informação errada o veio confirmar.
Lá paguei e ouvi um pirrónico pedido de desculpas, mas se até então era olhado com desconfi ança, agora era visto como um intruso.
De início, não percebi qual era o meu crime. Mas aos poucos ia fi cando claro por que razão era considerado persona non grata: é que, entre as sete mil pessoas daquele parque de campismo, eu era o único campista.
A maior parte das famílias do Parque da Caparica é composta por três gerações, sendo que a do meio é a menos representada. Avós e netos constituem os aglomerados típicos, uns reformados e outros estudantes, porque as férias aqui são longas — cinco meses, pelo menos. No resto do ano, um campista admitiu que vem todos os fins-de-semana. Sendo que este começa na quinta-feira e termina na terça. “À quarta vou a casa para ver o correio.” dam felizes e todos se tratam por “companheiro”.
Há muita gente que fi ca mesmo aqui o ano inteiro. O carácter permanente da ocupação é visível nos pavimentos das tendas — de tijoleira, azulejos ou soalho flutuante —, nos arbustos, nas heras, e mesmo árvores de fruto que adornam muitos alvéolos, na mobília e nos electrodomésticos que os recheiam.
Todas as tendas têm fogão, forno, microondas, frigorífi co, televisão com serviço Meo ou Zon, com antena parabólica, computador com Internet wi-fi , aquecedores, ventoinhas, sofás, cómodas, mesas, camas, roupeiros. Nalgumas é possível ver mesas de sala de vidro, candeeiros arte-nova, lustres. Tudo atafulhado num espaço exíguo para uma vivenda de férias, ainda que enorme para uma tenda. Na realidade, cada alvéolo é composto por uma roulotte e um avançado de lona, com uma cobertura de pano amarelo sobre o conjunto. Na roulotte fi cam os quartos, no avançado a sala, funcionando a cozinha numa pequena tenda à parte, sob a mesma cobertura. Mas é frequente haver mais um ou dois quartos no avançado, e na roulotte terem sido montados beliches. Aliás, diz-se que alguns campistas escavaram o chão por baixo da tenda, para abrirem mais um piso, reservado a adega, arrumações ou mesmo quarto de dormir. Não consegui confi rmar isto. Os directores garantiram-me que é uma lenda.
Nas unidades maiores, o proprietário pode dar-se ao luxo de abrir parte da lona do avançado, transformando esse espaço numa esplanada. Isto se tem a sorte (ou o privilégio) de ter um alvéolo voltado para uma das ruas. Se estiver encravado entre centenas de outros alvéolos, com uma distância de meio metro entre cada um, a esplanada daria para o quarto do vizinho.
Não obstante, é por vezes nestes “bairros” impenetráveis que a animação é maior. Veja-se a festa do Carreiro da Alegria.
No parque do CCCA há festas em todas as noites de Verão. Algumas realizam-se nos restaurantes, de súbito transformados em boîtes, no salão de convívio, nos campos de jogos ou no “fogo de campo”. É necessário pedir licença à direcção do parque, que a concede na condição de não haver duas festas na mesma noite, para evitar concorrência.
Se, por exemplo, há uma sessão das Noites Tropicais no Pérola do Oceano, o restaurante Parque, atribuído a outro concessionário, no extremo oposto do recinto, não pode dar festa nessa noite. Talvez para compensar os prejuízos resultantes desta política económica de “regulação de Estado”, o Pérola aposta forte no comércio informal. Para se conseguir um recibo é preciso chamar o patrão e ouvir uma descompostura.
Mas na organização da festa ficou de lado a poupança. A banda, constituída por vocalista, baixista e organista, não teme a incongruência do repertório. Salta do tango para o pimba, com um pé na bossa nova e outro num género inovador a que eu chamaria “slow espiritual”.
“Mãe de Deus, tende piedade de nós”, chiava o cantor, enquanto os pares evoluíam em amplexos românticos, barriga contra barriga, antes de saltarem de braços no ar, entoando em coro “Mas quem será o pai da criança? Sei lá, sei lá”.
Homens de manga cavada e fi o de ouro, rapazes de camisa justa lilás e brinco, gel e patilha fi ninha, dançando com raparigas de vestido preto justo e curto e saltos altos, entradões anafados, de calção e chinelo, boné branco de pala para trás, raparigas em grupo à espera nas mesas, crianças a correr, outras de trotinete: é uma autêntica festa de aldeia, que mobiliza a comunidade inteira até às tantas.
Nos bairros, as festas, de carácter esporádico ou regular, têm mais personalidade. É famosa a do Carreiro da Alegria. Trata-se de um desses “becos” onde não se pode abrir os braços sem tocar na tenda do vizinho. O espaço é diminuto, mas os organizadores, que habitam as seis tendas alinhadas de ambos os lados do carreiro, conseguiram montar um sistema de karaoke, colunas de som, duas mesas repletas de comida e um balcão de bebidas. Estavam todos aos saltos no carreiro. “The roof, the roof is on fire”, cantavam. “Somos uns 30, de cinco famílias, o mais velho tem 66 anos e a mais nova dois, que foi feita no parque”, disse Francelina Jacinto, de 53 anos, a “matriarca do carreiro”, envergando uma T-shirt e um boné com um smile, o símbolo do Carreiro da Alegria.
O parque de campismo do CCCA existe há 42 anos, e grande parte dos seus utentes está cá desde essa altura. É o caso das famílias Terras e Vargas. Já vão na terceira geração. Compraram tendas junto uns dos outros, e agora constituem um bairro. Os churrascos são feitos alternadamente em casa do casal Terras ou Vargas, ou dos filhos. Nenhum deles pensa alguma vez sair daqui. “Isto é um condomínio privado junto à praia”, explicou Jacinto Terras, de 80 anos. A mulher, Manuela, não gosta de praia, mas valoriza o convívio. São famílias que vivem juntas há décadas, como nas aldeias que já não existem. Todos se conhecem. Os mais velhos são compinchas da sueca ou do dominó, os jovens deram aqui os primeiros passos, brincam na rua, começam a namorar.Jacinto Terras e o filho, João, tiveram uma vez uma conversa. “Se nos saísse o Euromilhões, abandonávamos o parque?” Concluíram que não.
É notório que a maioria da população do CCCA pertence à classe média baixa. É barato. Um alvéolo aqui custa, hoje, entre três mil e cinco mil euros. Mais o aluguer do terreno, que ronda os 50 euros por mês. O problema é que não se consegue comprar não se sendo sócio do CCCA. Mesmo para estes é difícil, porque o espaço não se multiplica, como eles.
Quando alguém pretende desistir do seu alvéolo, pode pôr o material à venda. Mas o comprador não fi ca com direito ao terreno, que é colocado numa espécie de concurso, no qual o critério de preferência é a antiguidade do sócio. Ou o grau de amizade com os directores, dizem as más línguas.
Quem pretende comprar é colocado numa lista de espera. Quando surgem as oportunidades, o primeiro da lista pode optar. Se não lhe agradar a unidade à venda, por estar por exemplo num aglomerado irrespirável, pode declinar. Tem um ano para escolher, após o que perde o direito.
São regras complicadas, que permitem muitas discussões e confl itos. David Carneiro, de 35 anos, e Cristina Dias, de 32, com uma filha de quatro meses, compraram agora um bonito alvéolo, depois de anos a “viver” no dos pais dele. Aproveitei para perguntar a Cristina como poderia eu comprar também um alvéolo.
“Isso não é possível”, disse ela. “Nós só conseguimos porque o David é da direcção e amigo de pessoas…”
David corrigiu logo: “Estou em lista de espera há dois anos. Aliás, inscrevi-me para que não dissessem que foi por cunha.”
A pressão para comprar os espaços é tão grande que a direcção não consegue fazer o que devia: dar baixa dos alvéolos que vão sendo abandonados, para fazer diminuir a densidade de tendas no parque.
Legalmente, a distância mínima entre as tendas seria de dois metros. Aqui, segundo o próprio presidente do conselho director, Luís Filipe Ramos, dois terços do parque não cumprem essa regra. A concentração de tendas e de materiais, aliada ao facto de todas terem um grelhador em funcionamento diário, leva o risco de incêndio a um nível extremo. Todos os anos, aliás, tem havido fogos no parque, e, apesar dos muitos extintores, vive-se à espera de uma catástrofe.
A desculpa que a direcção tem apresentado é a de que, como o parque poderá ter de sair deste local, instalando-se nuns terrenos designados por Pinhal do Inglês, longe da praia, não faz sentido iniciar as obras antes que uma decisão seja tomada.
Com efeito, segundo o projecto Polis para a zona, os três parques de campismo junto à praia terão de ser deslocalizados. Além dos danos causados à zona de dunas e à arriba fóssil da Caparica, multiplicam-se as queixas contra os privilégios dos mais de 11 mil sócios do CCCA sobre toda aquela zona de terrenos públicos à beira da praia.
João Terras e Luís Filipe Ramos, que pertencem a uma direcção eleita por quatro vezes seguidas, dizem ser um erro tirar dali os parques. “Nós fi zemos crescer a Costa de Caparica”, alegou Luís Filipe Ramos. “Isto não é uma região de hotéis. As pessoas ou têm cá casa, ou vêm e vão de Lisboa todos os dias. Não estamos em Miami Beach. Aqui a água é fria e os areais estão a diminuir”, desvalorizou ele, para concluir que, se afastarem os sócios do CCCA, mais ninguém viria para aqui. “Sem os parques, muita gente não poderia fazer férias na praia”, explicou o presidente. A missão dele é defender esse direito, para os 11 mil sócios do clube. Pouco lhe importa que aquela área imensa fi que vedada ao resto da população. “Temos de defender os nossos sócios. São eles que pagam as quotas.”
Ou que a actividade do clube seja menos campismo do que proporcionar casas de praia a uma multidão de pessoas que não são ricas.
“Dantes era horrível, era uma trabalheira, ter de montar e desmontar as tendas”, recordou Francisco Mateus, outro dos membros do clã Vargas. “Não havia electricidade. Tínhamos de acender um Petromax.”
E que tal abrir mais algum espaço para verdadeiros campistas, perguntei ao presidente.
“O que temos é pouco para os nossos sócios.”
E criar regras para impedir que as tendas estejam vazias a maior parte do ano?
“Quanto mais tempo estiverem vazias, mais rentável é para o parque, que recebe a mensalidade e não tem gastos em electricidade, água e gás”, respondeu João Terras. Um sócio pode estar meses ou anos sem ocupar a tenda, que nunca é desalojado. Mesmo que deixe de pagar, é, segundo Terras, “muito difícil que lhe desmontem o material. Só depois de muitos avisos, muitas reuniões da direcção”.
Já a tenda 3009, pertencente ao único campista do parque, ia ser desmontada porque o utente se ausentou por umas horas.
Para os directores, “o campismo de tenda às costas não é um modelo de negócio viável para os parques”. Já “não há disso em lugar nenhum”. O modelo do parque do CCCA representa “o campismo do futuro”. Por Paulo Moura

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Bloco quer garantir a “desgovernamentalização da RTP”

Esta não é a primeira vez que o Bloco apresenta uma proposta para alterar o modelo de nomeação dos administradores da RTP, contudo, desde 2010, "muita coisa mudou", sendo que os perigos de "instrumentalização" e de "divisão de lugares entre os principais partidos" estão, segundo alerta a dirigente bloquista Catarina Martins, "cada vez mais à vista de todos".

Mélenchon: O caso Assange, a Venezuela, e os media golpista na América Latina

Os grandes jornais do "bloco" puseram-se em movimento. E com eles vieram, de modo surpreendente, também jornais da periferia, como Charlie Hebdo, ao qual Maxime Vivas e Le Grand Soir responderam de modo argumentado, considerando a importância desse jornal nos meios da outra esquerda. Mas o essencial da dita "grande imprensa" rapidamente pôs-se em posição de atirar para matar. Primeiro, insidiosos; em seguida, abertamente acusatórios. O assalto aconteceu em dois planos.

Férias

Em 1971, quando entrei para a função pública, não existia subsídio de férias. Ele seria instituído no ano seguinte, em 1972.

O ano de 2012, o último em que usufruo de férias enquanto ao serviço ativo do Estado, deixei de ter direito a subsídio de férias.

Precisamente quatro décadas depois, o ciclo fecha-se. Não tem graça nenhuma, mas não deixa de ser curioso.

(Na imagem: as primeiras férias dos trabalhadores franceses, em 1936, decididas pelo "Front Populaire)

As medidas anunciadas por Passos Coelho para 2013,

RESUMO DESTE ESTUDO
Passos Coelho no discurso que fez perante as câmaras da TV, em 07/09/2013, de apresentação das novas medidas de austeridade para 2013 disse textualmente o seguinte: " O que propomos é um contributo equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum, como exige o Tribunal Constitucional … Foi com este propósito que o governo decidiu aumentar a contribuição (dos trabalhadores) para a Segurança Social (de 11%) para 18%, o que nos permitirá, em contrapartida descer a contribuição exigida às empresas (ou seja, aos patrões) também (de 23,75%)para 18% " Isto significa que os trabalhadores do setor privado terão de contribuir para a Segurança Social com mais 2.700 milhões € (+63,6%), e os patrões de contribuir com menos 2.200 milhões € (-24,2%). E é precisamente a isto que Passos Coelho chama descaradamente "um contributo equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum".
Para além disso, constitui também uma grande mentira afirmar, como fez Passos Coelho e seus defensores, que a redução das contribuições patronais para a Segurança Social em 5,75 pontos percentuais vai aumentar a competitividade das empresas e criar emprego. Para concluir basta ter presente, que aquela redução de 24,2% nas contribuições pagas pelos patrões vai determinar uma redução nos custos das empresas que estimamos entre 1,5% e 2,46% com base num estudo que fizemos utilizando dados de um relatório do próprio governo (ver nosso estudo 36 de 2011), portanto uma redução reduzida sem impacto significativo facilmente anulada por qualquer variação na taxa de câmbio. Quem são altamente beneficiadas com este bónus são empresas como a EDP, GALP, PT, JM, etc.
Mas a estranha equidade de Passos Coelho não fica por aqui pois, no mesmo discurso, acrescentou também o seguinte "A subida de 7 pontos percentuais será ainda aplicada aos funcionários públicos ", ou seja, eles terão de descontar nas remunerações que recebem mais 850 milhões € por ano para a CGA (portanto, os trabalhadores da Função Pública passarão, em 2013, a descontar 18% para a CGA mais 1,5% para a ADSE, o que soma 19,5%). E para além deste aumento de contribuições para a CGA, o " corte do segundo subsidio é mantido nos termos já definidos na lei do Orçamento do Estado para 2012 , o que significa que, em 2013, os trabalhadores da Função Pública vão sofrer também um corte direto nas suas remunerações nominais que estimamos em 540 milhões € só por esta razão. E o aumento dos descontos para a Segurança Social e CGA, enquanto o PSD e CDS forem governo é para se manter.
Segundo também palavras de Passos Coelho, " No caso dos pensionistas e reformados (reformados da Segurança Social e os aposentados da Função Publica), o corte dos dois subsídios permanecerá em vigor. A duração da suspensão dos subsídios, tanto no caso dos funcionários, como nos dos pensionistas e reformados, continuará a ser determinado pelo período de vigência do Programa de Assistência Económica e Financeira ", ou seja, pelo menos até ao fim de 2014. Só em 2013, os reformados do setor privado sofrerão um corte nas suas pensões que estimamos em 750 milhões €, e os aposentados da Função Pública terão um corte nas suas pensões que calculamos em 700 milhões €; portanto, para empregar as palavras de Passo Coelho, governo e troika estão-se a "lixar" para as decisões do Tribunal Constitucional.
Em relação aos rendimentos da propriedade e do capital que, em 2011, segundo o INE atingiram mais de 51.961 milhões € (valor que corresponde a 78% dos ordenados e salários recebidos por todos os trabalhadores portugueses), e relativamente, por ex., a 18.106 milhões € de rendimentos transferidos para o estrangeiro de aplicações feitas em Portugal por não residentes, que não pagam impostos, Passos Coelho não anunciou qualquer medida.
Paul Krugman, Nobel da economia, para explicar este comportamento dos governantes de pequenos países escreveu estas palavras esclarecedoras que deviam merecer uma atenção especial por parte dos portugueses já que ajudam a compreender a situação atual: " Se alguns deles terminam o mandato usufruindo de grande estima por parte do grupo de Davos (fórum mundial anual onde participam principalmente os representantes dos grandes grupos económicos internacionais e os governantes dos maiores países) há uma infinita série de postos na Comissão Europeia, no FMI ou em organismos afins para os quais poderá ser elegível mesmo que seja desprezado pelos seus próprios conterrâneos. Aliás, ser desprezado seria de certa forma uma mais-valia ". E é sabido que Vitor Gaspar é o pupilo do ministro alemão das Finanças. Para além disso Krugman também menciona o fenómeno que designa por "porta giratória" entre o governo e cargos bem pagos nos grupos económicos nos seguintes termos: "Esta porta já existe há muito tempo, mas o salário que se consegue obter se a indústria gostar deles é imensamente maior do que aquilo que costumava ser, e daí a necessidade de acomodar as pessoas que estão do outro lado da porta, de adotar posições que os torne num contrato atrativo após a carreira politica". Resistir

domingo, 9 de setembro de 2012

Galp encaixa 3,9 mil milhões com venda de parte da Petrogal Brasil à chinesa Sinopec.

 

Os impostos para Portugal?

A Galp Energia e a empresa chinesa Sinopec concluíram hoje a operação, anunciada em novembro passado, de aumento de capital da subsidiária Petrogal Brasil, a empresa responsável pela exploração e produção de petróleo e gás natural no Brasil.

De acordo com o comunicado enviado à CMVM, a operação já recebeu o aval de todas as autoridades competentes e, a partir de agora, a Sinopec fica com 30% da Petrogal Brasil e a Galp com os restantes 70%. Pela venda da participação, a empresa portuguesa recebe um total de 3,9 mil milhões de euros, um montante que servirá para prosseguir com o pesado plano de investimentos no Brasil na área da exploração e produção de petróleo. "Este aumento de capital dota, por um lado, a empresa do fôlego financeiro necessário para suportar as atividades de exploração e desenvolvimento no Brasil e por outro, dá-lhe flexibilidade adicional para desenvolver outros projetos, quer dentro do seu atual portfolio, quer em oportunidades futuras que venham a surgir, no Brasil ou noutras geografias", pode ler-se no comunicado. A conclusão deste negócio pressupõe ainda alterações na administração da Petrogal Brasil que passa agora a ter cinco elementos da Galp Energia e dois da Sinopec. O presidente executivo será da Galp, que continua a controlar a empresa brasileira  apesar dos chineses estarem envolvidos na gestão operacional da empresa.  D. V.

Islândia defende investigação ao Governo português.

O membro do Banco Central da Islândia Gylfi Zoega diz que Portugal deve investigar quem está na origem do elevado endividamento do Estado e dos bancos.

"Temos de ir aos incentivos. Quem ganhou com isto? No meu País eu sei quem puxou os cordelinhos, porque o fizeram e o que fizeram, e Portugal precisa de fazer o mesmo. De analisar porque alguém teve esse incentivo, no Governo e nos bancos, para pedirem tanto emprestado e como se pode solucionar esse problema no futuro", diz o responsável.

A participar nas conferências do Estoril, o economista, que também participou no documentário premiado com um Óscar "Inside Job -- A verdade sobre a crise", disse em entrevista à Agência Lusa que Portugal beneficiou muito de estar no euro nesta altura, porque para além do apoio dos seus parceiros da união monetária, terá de resolver os seus problemas estruturais ao invés de recorrer, como muitas vezes no passado, à desvalorização da moeda.

"Talvez para Portugal estar no euro nesta altura seja uma bênção, porque apesar de não conseguir sair do problema de forma tão fácil como antes, através da depreciação [da moeda], vocês têm de lidar com os problemas estruturais que têm", disse.

A Islândia, na sequência da grave crise económica que sofre desde 2008, derivada do colapso do seu sistema financeiro (que chegou a ser 10 vezes maior que a economia islandesa), também teve de recorrer ao Fundo Monetário Internacional para resolver os seus problemas de financiamento, mas neste caso a experiência não é nada mal vista.

"Penso que o FMI é útil neste sentido, porque é uma instituição que pode ajudar a coordenar as acções. Existem coisas impopulares que têm de ser feitas, e pode ser utilizada como um bode expiatório para essas medidas impopulares, que teriam de ser aplicadas de qualquer forma. Ajuda os políticos locais a justificar aquilo que podiam não conseguir fazer por eles próprios", diz.

O responsável diz mesmo que a experiência do seu país tem sido "muito boa" e que a instituição tem feito um grande esforço de coordenação para garantir que as medidas têm os efeitos desejados.

"A experiência com o FMI acabou por ser muito boa, porque actualmente têm uma tendência para serem muito pragmáticos, para encontrar soluções que funcionem. Tiveram algumas medidas pouco ortodoxas, como os controlos de capital e outras para reduzir o défice, e ajudaram a garantir que o programa estava no caminho certo, visitando todos os ministérios, o banco central. Tem sido um esforço em grande cooperação", explica.

No entanto, recorrer a ajuda externa tem as suas consequências e a principal tem sido a falta de confiança dos mercados, explica ainda Gylfi Zoega, acrescentando que ainda não existe previsão para quando ou se a Islândia vai conseguir voltar a financiar-se nos mercados.

"[A Islândia] Não tem qualquer acesso aos mercados de capitais actualmente, e é uma questão em aberto. Quanto tempo demorará? Se os mercados ficarão completamente fechados? Se olham para isto como um problema isolado que podem perdoar ou se olham e pensam nisto como algo mais crónico. Portanto, nós não sabemos como vai ser o nosso acesso ao mercado no futuro", afirma.

sábado, 8 de setembro de 2012

Jerónimo de Sousa apela aos portugueses que se "ergam" e "lutem" contra "roubo descarado" de salários

O secretário-geral do PCP considerou que a declaração de hoje do primeiro-ministro "foi pior" que o esperado, traduzindo-se "num mês de salário roubado a todos os trabalhadores", e apelou aos portugueses para que se "ergam" contra o Governo.

"A declaração de Passos Coelho ao país foi pior do que se pensava", disse Jerónimo de Sousa, numa declaração aos jornalistas na Festa do Avante!, na Quinta da Atalaia, no Seixal.

O líder comunista sublinhou que "Descodificada a intervenção e a demagogia", aquilo "que é concreto, aquilo que o povo português vai saber", é que "vai perpetuar-se o roubo de dois salários" para pensionistas, reformados e trabalhadores do setor público, a que se junta "novidade de agora esse roubo ser extensível aos trabalhadores do setor privado".

"O que significa, feitas as contas (...), um mês de salários roubado a todos os trabalhadores", sublinhou.

"E, simultaneamente, com descaramento, os patrões, as entidades patronais, passam a descontar menos", acrescentou, destacando que se trata de "uma transferência direta desse roubo para os bolsos do capital".

Para o PCP é, por isso, "profunda demagogia falar em desemprego", porque as medidas agora anunciadas "significarão inevitavelmente mais desemprego e mão de obra mais barata, mais exploração dos trabalhadores…

“Juntar forças na pluralidade das opiniões”

"O debate de ideias à esquerda tem sido fraco porque tem sido muito segmentado em cada espaço partidário. Nós queremos romper essas amarras e lançamos espaços de debate com pessoas que são de outros partidos, que são independentes, que têm os seus pontos de vista e vêm dar as suas opiniões e confrontá-las com as nossas", afirmou Pedro Filipe Soares à Lusa.

A "Sociedade da Austeridade" em debate no Socialismo 2012

O investigador do Centro de Estudos Sociais defendeu que austeridade não é apenas uma escolha económica, sendo "também um modelo de regulação da sociedade". E apontou a "falta de clareza" na apresentação dos argumentos da teoria política da austeridade, bem como a necessidade de questionar a sua legitimidade.

"A esquerda europeia tem de ser a melhor oposição à austeridade"

Na sua intervenção, Marisa Matias falou da mudança da relação de forças política após a crise financeira de 2008, com uma "viragem à direita sem precedentes" com reflexos no Parlamento Europeu, onde pela primeira vez os conservadores podem dispensar os socialistas para obterem apoio maioritário às suas propostas.

Passos Coelho anuncia mais sacrifícios para trabalhadores e pensionistas

Anunciando que "ainda subsistem vários focos de risco", Pedro Passos Coelho sublinhou que o Orçamento do Estado para 2013 vai ser um "orçamento ousado e ambicioso" de resposta "à emergência financeira" do país, que "ainda não terminou".

A avaliação

A troika a aterrar na Portela para avaliar a execução do contrato assinado por ela, pelo PS, pelo PSD e pelo CDS com a bênção do Presidente da República e o País a saber que o défice do primeiro semestre de 2012 tinha atingido 6,9%, a muitos milhões de euros de distância dos juradíssimos 4,5%. E, lembrou a Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento, por regra a execução de despesa nos segundos semestres é maior. Como dizia o outro, o que é mau só pode mesmo piorar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Encruzilhadas da dívida

Sobre as dívidas públicas, privadas, soberanas, externas, justas, injustas, execráveis e afins há uma grande variedade de posições que se baseiam quase exclusivamente na proclamação como forma de fazer política e interpretar a situação.

Adriano Moreira

Lembro-me muito bem da primeira aula a que assisti, tendo Adriano Moreira como professor. Foi em outubro de 1968, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), de que Adriano Moreira era diretor. Caramba, foi já há 44 anos! E Adriano Moreira fez ontem 90 anos.

Adriano Moreira era, à época, um nome de que muito se falava - mas sobre o qual, por razões que a conjuntura tornava óbvias, muito pouco se escrevia. Dias antes, Marcello Caetano fora nomeado pelo presidente Tomaz para o cargo de "presidente do conselho", em substituição de Salazar. Nos conciliábulos do regime e não só, o nome de Adriano Moreira havia sido citado como uma possível opção, mas os equilíbrios que se refletiram na decisão do presidente da República não o favoreciam. À época, referiram-se muito as resistências que o seu nome suscitaria em certos círculos militares, embora outras opiniões fossem no sentido de que outras tendências castrenses desejavam vê-lo em S. Bento. A verdade é que, no saldo final, Adriano Moreira ficou arredado da sucessão de Salazar, em benefício de Marcello Caetano. E, este, logo que pôde, pela mão do ministro José Hermano Saraiva, cuidou em afastá-lo da direção do ISCSPU, nos primeiros meses de 1969.

Para os estudantes, esta evidente conflitualidade com Caetano dava a Adriano Moreira uma auréola de alguma "oposição", que se vinha a somar à imagem vaga, que alguns "connaisseurs" espalhavam, dos seus tempos de jovem advogado, em que chegara a estar detido pela polícia política, pela sua ação de defesa dos interesses da família do general Godinho, cuja morte misteriosa na prisão, na decorrência de uma tentativa de golpe militar, fazia parte das mitilogias recorrentes do "reviralhismo". Não parecia, assim, estranho que o movimento estudantil dentro do ISCSPU, que se vira provocado pela "não homologação" ministerial da lista vitoriosa nas eleições desse ano para a associação académica, acabasse por se aliar taticamente a Adriano Moreira. Como membro dessa direção associativa, tenho uma memória muito viva da gestão dessa "aliança", que teve em Narana Coissoró uma figura proeminente. Recordo bem a dificuldade que alguns de nós tínhamos em ver a nossa ação ligada à de um antigo ministro de Salazar, pelo "risco" de estarmos a ser instrumentalizados por uma das facções dentro do regime.

Adriano Moreira era um professor brilhante, com uma exposição atraente, que nos gerava vontade de irmos mais longe naquilo que nos transmitia. Começava as aulas em voz muito baixa, para desfazer as conversas residuais na sala. Ao falar, circulava o olhar, fixando-se, por instantes, em cada um de nós, o que dava a impressão de se nos dirigir individualmente. Como a "política" era, como dizem os franceses, o seu "fond de commerce", nós distinguiamo-la sempre por detrás de todos o seus comentários, onde o "esquerdismo" de alguns procurava sempre descortinar o que se assemelhasse a heterodoxia. Adriano - era assim que a ele nos referíamos, entre nós - tinha a rara habilidade de suscitar uma controlada polémica política entre os alunos. A minha colega Maria João Bustorff lembrava, há tempos, o modo como Adriano estimulava debates entre mim e o António Marques Bessa, cada um de nós em lados bem antagónicos do espetro político, em confrontos nas aulas que sempre tinham temas do "programa" como motivo. Belos tempos!

Pouco a pouco, nessas aulas, íamos sendo introduzidos na matriz do pensamento de um homem que, um dia, Salazar escolhera inesperadamente para a pasta do Ultramar, na sequência da rebelião angolana de 1961, mas cujo espírito reformista o regime não acomodara e cuja frontalidade acabaria por conflituar com o poder administrativo do governador de Angola, general Sá Viana Rebelo, o que levaria o chefe do Governo a tomar a decisão de ver-se livre, simultaneamente, dos dois. Adriano Moreira não era um proselitista deliberado, não cuidava em endoutrinar-nos, não veiculava uma ideologia clara. Era um questionador do quotidiano, alguém que problematizava e nos obrigava a refletir. Sentiamo-lo, claramente, do "outro lado", mas, estranhamente, não provocava uma antagonização aberta. E isso, às vezes, enfurecia-nos: nós fazíamos parte de uma geração maniqueísta e Adriano Moreira "furava" essa fácil dualidade.

Com o 25 de abril, o radicalismo saneador dentro do ISCSP (que, entretanto, perdeu o "U", como o país também perdeu o "ultramar"...) fez com que Adriano Moreira saísse para o Brasil. Uma decisão estúpida e sem sentido, para alguém que, não obstante o seu percurso político anterior, tinha tido sempre um comportamento exemplar face aos alunos e face à "nossa escola" (era assim que Adriano Moreira se referia sempre ao Instituto), que nunca perseguira ninguém e a quem o ensino universitário português - e as Ciências sociais, muito em particular - muito deviam. Fiquei satisfeito quando esse seu afastamento chegou ao fim e tive o prazer de então lho poder dizer, cara a cara, uma noite de 1979, na Gulbenkian. E gostei muito da sua resposta: "fico contente de ouvir isso, particularmente vindo de si".

Adriano Moreira, depois do seu regresso de Portugal, envolveu-se na política democrática, sempre de uma forma elegante, sem chicanas nem grandes polémicas. Naturalmente, a área conservadora foi o seu meio natural de expressão cívica. Porém, fê-lo sem "travestismos", sem saltitar em conúbios oportunistas, umas vezes com a esquerda, outras vezes com direita, como outros cataventos da história portuguesa contemporânea. Manteve, em paralelo, uma atividade académica intensa e, pela imprensa, tem espalhado um pensamento em matéria de relações internacionais com uma profundidade muita rara entre nós.

Há pouco tempo, Adriano Moreira publicou um livro com as suas memórias. Nesse seu reencontro com o passado, e embora se possam entender as razões por que o terá feito, o texto de Adriano Moreira ficou, na minha perspetiva, bastante aquém da síntese de vida que seria de esperar de uma figura com a sua estatura. Senti por ali inesperados compromissos, de uma natureza idêntica àqueles que, no passado, o levou, algumas vezes, ao desnecessário facilitismo de rodear-se de gente que não estava ao seu nível, nomeadamente no mundo académico.

Nos últimos meses, tenho-me cruzado com Adriano Moreira nas reuniões de uma comissão a que ambos pertencemos, nomeada pelo governo, que tem como tarefa preparar o novo Conceito estratégico de Defesa nacional. Nesses encontros, Adriano Moreira tem produzido comentários e lançado ideias que estão ao nível do seu melhor fulgor intelectual, a todos nos ajudando a pensar melhor o país. E isso aos 90 anos, ontem completados. Os meus parabéns, professor.

Para onde vão os nossos impostos.

Um casal que ganhe por ano 30.000€, sem filhos além de tudo o mais, paga de impostos um total no ano anterior de 2.535,03€

São distribuídos da seguinte forma:

  • Serviços Gerais da administração pública 389,49€ (15.36%)
  • Defesa 70,35€ (2.78%)
  • Segurança e ordem pública 99,59€ (3.93%)
  • Assuntos econômicos 260,14€ (10.26%)
  • Proteção do ambiente 35,09€ (1.38%)
  • Serviços de habitação e desenvolvimento coletivo 31,5€ (1.24%)
  • Saúde 359,37€ (14.18%)
  • Serviços recreativos, culturais e religiosos 59,61€ (2.35%)
  • Educação 343,43€ (13.55%)
  • Proteção social 886,47€ (34.97%)

Vale a pena pensar em que a cada um de nós cabe pagar para o Estado 15,36%! Sabemos que quando nos dirigimos a qualquer serviço publico nada é grátis, tudo é pago a peso de ouro!

A defesa e a segurança e ordem publica (deveria estar nos serviços gerais), custam-nos 6,28% ?!?!?!?! Sai-nos mais barato contratar uma empresa privada!

Assuntos económicos 10,26% ?!?!?!

A saúde 14,18% e a educação 13,55% como se pode pagar por estes valores quando a saúde é oque é, não há médicos de família, fecham postos, nos postos não há dentistas, oftalmologistas, cardiologistas, etc.. só médicos de clinica geral!!! A educação então não sei se é melhor…

Serviços recreativos, culturais e religiosos 2.35%, mas o que é isto??? Onde será que algo seja grátis? Porque tenho que pagar para serviços religiosos???

A protecção do ambiente …. Serviços de habitação e desenvolvimento coletivo…. para que servem estes impostos? Para asilar mais uns quantos?

Freitas defende imposto especial para quem ganha mais, eu defendo mais do que isso.

Bastava ao governo criar essa taxa, mesmo que provisória, para resolver muitos casos de necessidade de dinheiro para sustentar a maquina do estado, que é um sorvedouro e normalmente mal aplicado, além dos desvarios em proveito próprio de alguns.
Mas, como já vimos, o que este governo faz, é ir sugar, ainda mais, os pobres, os desempregados, e os que ganham miseravelmente. É que Passos Coelho e Paulo Portas querem, é que cheguemos ao tempo dos importantes Srs Drs. atentos, venerandos e obrigados. Ao povo miserável, terceiro-mundista que já quase estamos, e que nos vai levar, senão houver nada legal ou uma revolta popular. este governo vai entregar novamente aos velhinhos três “F’s” Fátima, Fado e Futebol.
Eu compreendi que o estado inacreditável que o PS, nas pessoas de José Sócrates, Santos Silva, António Costa, José Junqueiro, António Lello, e quejandos deixou o país! Compreendi portanto que da a volta implicava sacrifícios, mas para todos, segundo as suas possibilidades. Mas Passos Coelho e Paulo Portas também sabiam, e melhor do que eu, se não do estado integralmente em que se encontrava o país, pelo menos com a mesma visão que eu. Estes mesmo Srs colaboraram no programa de ajuda, definiram muitas das medidas senão quase todas com a Troika, pelo que as medidas a tomar seriam algumas destas, e umas que faltam. Mas ir retirar aqueles que o tem, não é devia, é ir buscar o dinheiro, são os mesmos onde este governo não o quer ir buscar. Quer continuar a manter os privilégios dessa gente, mandando-nos a todos aqueles, que não estamos ligados por laços familiares ao poder nem às empresas ex-publicas onde se encontram os filhos, maridos ou mulheres, e restante família, para a miséria física, pois mental também lá vamos. Assim os governantes e seus familiares já seguros de percalços de maior, podem continuar a receber as prebendas do Estado que eles perpetuam, em seu beneficio e se precaver do destino de todo o restante povo.

“Quem ganha mais de 10 mil euros por mês deveria pagar um imposto especial, defendeu ontem à noite numa entrevista à RTP, Freitas do Amaral”

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Um canhão pelo cú

 
 Este texto es incendiar Espanha
 
Espanha
 
Texto foi publicado no El Pais
...não deixem de ler...

O seguinte texto foi publicado recentemente no El País, tendo-se tornado absolutamente viral em Espanha. Reflecte sobre o terrorismo financeiro e a captura económica. Chama as coisas pelos seus nomes e faz uma análise sobre o capitalismo actual que está a incendiar não só Espanha como todo o mundo. O título é "Um canhão pelo cú", e é escrito por Juan José Millas.
 
 
 
 
 
Um canhão pelo cú

Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

Juan José Millas 

Soares apela à unidade contra onda de privatizações.

Concordo inteiramente! Acabe-se com o regabofe de vender o que dá lucro ao Estado, portanto a todos nós!

“O antigo Chefe de Estado disse, a noite passada numa conferência em Loulé, que não se sabe quem manda, se o Governo ou a troika, e sublinhou que estão a ser vendidos os anéis sem que se saiba quem está a ser beneficiado com isso. "Vender as Águas de Portugal, vender a TAP, vender tudo e o que é que fica do nosso país? Acho que isto é de uma gravidade estranha e penso que todos os patriotas têm que se juntar, não por razões políticas, mas por estas razões simples e lutar para que as coisas mudem. Se não, todos somos responsáveis", alertou.” DN

O General Loureiro dos Santos afirma que 96,1% dos portugueses apoiam as FA.

Desconheço como o General Loureiro dos Santos, explica que as Forças Armadas, são apoiadas pelos 96,1% dos portugueses! Deve ter estudos nesse sentido. Não é essa a percepção que tenho, sobre o apoio dos portugueses às "suas" F.A. Não saberemos muito sobre elas (eu fiz o serviço militar obrigatório, não integralmente, mas estive lá...), mas sabemos  outras situações algumas dignas outras nem tanto. Lamentavelmente somos mais sensiveis aos aspectos negativos, que aos positivos. Mas para chamar a atenção sobre os positivos, tais como as missões que neste momento estão em "apoio de engenharia às autarquias" nos designados "Plano de Operações Lira", embora não me recorde de nenhum responsável autarquico falar disso, mas posso admitir esse lapso, a "prevenção e rescaldo contra incêndios", no "Plano Vulcano", que este ano ouvi falar uma vez e apenas sucintamente num telejornal, desse apoio; pois em anos anteriores foram casos pontuais, ou os media tão zelosos esqueceram-se de nos elucidar sobre esses apoios das F.A.
Mas, sabemos e ouvimos isto: dos privilégios que os sucessivos governos lhes vão concedendo não sei a que titulo. Dos negócios que não tem corrido bem, com a clareza devida. Dos "sacos azuis" vá-se lá saber para que efeito. Das histórias do militar das "batatas" no "ultramar", que foi promovido num dia e passou a disponibilidade de seguida, mas usa ainda esse titulo militar. Dos hospitais só para militares e familiares  quase, ou mesmo, ás moscas, mas dos quais não abdicam, existentes em varias cidades de Portugal. Messes com produtos de supermercado mais baratos. Refeitórios onde vão mesmo quando não estão de serviço e comem a preços tipo Assembleia da Republica. Podem inclusivamente lá dormir e comer as refeições mesmo que não estejam de serviço. Dos milhares de civis a trabalharem para as F.A. Das fraudes nas consultas medicas dos militares e familiares. Submarinos que não andam. etc.
A estrutura militar é também ela interessante pois, no exercito, desde 2001 até 2011 o numero de oficiais aumentou, quase 7,5%, em vez de baixar, visto que os efectivos totais baixaram cerca de 2000!? Na força aérea idem,, mas no total aumentou os efectivos em em cerca de 100 pessoas, mas de forma interessante, pois os oficiais aumentaram 72, os sargentos 237 e os praças diminuiram 134!? A marinha esconde mais os seus dados, mas ainda assim diminuiu 3.222 efectivos, à custa de 1.170 militares, 2024 civis, alguns poucos da policia maritima, etc. No orçamento de Estado está claro o "quantitativo máximo de militares em regime de contrato (RC) e de voluntariado (RV) nas Forças Armadas, para o ano de 2012, é de 17 710 militares, sendo a sua distribuição pelos diferentes ramos a seguinte: a) Marinha: 2098; b) Exército: 12 939; c) Força Aérea: 2673."
Os cerca de 80 generais, que provavelmente até se atrapalham uns aos outros , oficiais superiores e subalternos, são cerca de 5150, sargentos quase 10.000, (num país da CE?! deve ser para ficarmos iguais aos gregos), e a cereja no topo do bolo, as FA querem mais equipamento que já foi pedido a este governo. Os custos das FA no Ministério da Defesa nacional 2 052 701 846 de euros, mas existem outros encargos aqui não mencionados. O PIB em Portugal são cerca de 180 mil milhões o que significa que as F.A. levam cerca de 1,2% do PIB e há estudos com valores para cerca de 2,3% ou seja os custos passam para o dobro.
Macário Correia, que durante uma entrevista à Rádio Renascença classificou a estrutura militar como "altamente cara e despesista"... O ministro Aguiar Branco, quando confrontado, respondeu que

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Maria Vieira está impedida de regressar ao Brasil ?!?!?!

Esta situação é típica das autoridades brasileiras, (não esquecer de onde vieram bastante criminosos), que querem impor-nos os seus cidadãos, que temos aceite sem problema significativos, com as habilitações académicas, mas não respeitam as dos outros e mais ainda as dos portugueses. Aceitamos dentistas com menos habilitações que os nossos, aceitamos engenheiros, etc., mas os nossos não estão autorizados a exercer, salvo raras exceções, depois de muito penarem, e atitudes de condescendência. Não é só terceiro mundismo, esta atitude brasileira, pois falar de xenofobia pode ser pouco...
"Atriz portuguesa já tem contrato assinado com a Globo a partir de outubro e apartamento arrendado, mas as autoridades brasileiras dizem que o visto válido até Agosto de 2013 não serve. O caso está a ser estudado..." ver no DN de hoje.
http://www.dn.pt/Inicio/interior.aspx?content_id=2751676

PS Xenofobia: A xenofobia pode ter como alvo não apenas pessoas de outros países, mas de outras culturas, subculturas ou sistemas de crenças. O medo do desconhecido pode ser mascarado no indivíduo como aversão ou ódio, gerando preconceitos.

O léxico da crise


Há uns anos, quando vivi em Londres, deparei um dia com uma expressão na imprensa que me pareceu não corresponder àquilo para que a sua leitura linear apontaria: "industrial action". Vim a perceber que se tratava de uma designação geralmente usada para greves, mesmo que o processo não fosse desencadeado na área industrial.
O mesmo fenómeno voltou a acontecer comigo aqui em França. Um dia, deparei no jornal com a expressão "plan social". Não percebi imediatamente o que isso queria dizer, porque a expressão não era de leitura unívoca. Mas, pelo contexto, rapidamente entendi que isso queria significar, numa linguagem corrente, uma situação de despedimento coletivo numa determinada empresa.
O que levará os países mais ricos a esconderem, por detrás destes eufemismos, as realidades a que nós chamamos pelos nomes óbvios?

A "Sociedade da Austeridade" em debate no Socialismo 2012

O investigador do Centro de Estudos Sociais defendeu que austeridade não é apenas uma escolha económica, sendo "também um modelo de regulação da sociedade". E apontou a "falta de clareza" na apresentação dos argumentos da teoria política da austeridade, bem como a necessidade de questionar a sua legitimidade.

"Le serment des cinq lords"


A grande vantagem de se andar por "outra França" é ter a oportunidade de ler uma imprensa regional de boa qualidade, que compense a grande desilusão que hoje é, com exceção do "le Monde", a imprensa nacional francesa, basicamente reduzida às duas caricaturas políticas, respetivamente de direita e esquerda, que nos oferecem o "Le Figaro" e o "Libération". Depois do fim do "Tribune", resta-nos seriedade conservadora do "Les Échos" que, em matéria de revistas semanais, se prolonga na revista "Challenges". O "Le Point" e o "L'Express" são hoje, na direita, uma sombra daquilo que já foram e da importância que já tiveram. À esquerda, o "Nouvel Observateur" tem ainda algum rigor, com o "Marianne" a surgir como um panfleto agora algo "déboussolé" com a vitória da esquerda.

A imprensa regional francesa, com mais de meia centena de títulos, consegue, em alguns casos, compatibilizar sínteses nacionais e internacionais interessantes com uma cobertura local mobilizadora, sem cair no sensacionalismo do "crime & cia". A minha experiência da sua leitura é escassa, pontual e pouco representativa, mas devo dizer que, vindo de um país onde essa realidade quase não existe ao nível de jornais diários, aprecio bastante o "Sud ouest", as "Dernières nouvelles d'Alsace", a "Voix du Nord" ou o clássico "Dauphiné liberé" (que, contariamente ao seu émulo "Le Parisien", soube manter a orgulhosa menção de "liberé", atribuído depois do fim da ocupação alemã).

Mas tudo isto, que é "como as cerejas", vem a propósito do facto de eu andar a ler, nos últimos três dias, o excelente "Ouest France", que cobre a Bretanha e zonas um pouco mais a sul. E o que é que fui descobrir no jornal? A publicação diária de uma nova "aventura" de Blake e Mortimer, "Le serment des cinq lords", na versão de Yves Sente e André Julliard, a qual pode não ter a grandeza do "traço" de Edgar P. Jacobs, mas não deixa de ser uma aproximação bem interessante. Em novembro, sai o álbum a público. Desde ontem, a Amazon já tem a minha inscrição. E que saudades eu tenho de Olrik! Bandidos deste quilate já não há mais!

Aula de Direito.

Uma manhã, quando nosso novo professor de "Introdução ao Direito" entrou na sala, a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:

- Como te chamas?

- Chamo-me João, senhor.

- Saia de minha aula e não quero que voltes nunca mais! - gritou o desagradável professor.

Juan estava desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala. Todos estávamos assustados e indignados porém ninguem falou nada.

- Agora sim! - e perguntou o professor - para que servem as leis?...

Seguíamos assustados porém pouco a pouco começamos a responder à sua pergunta:

- Para que haja uma ordem em nossa sociedade.

- Não! - respondia o professor.

-Para cumpri-las.

- Não! 

-Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.

- Não!! 

- Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!

- Para que haja justiça - falou tímidamente uma garota. 

- Até que enfim! É isso... para que haja justiça. E agora, para que serve a justiça? 

Todos começávamos a ficar incomodados pela atitude tão grosseira. Porém, seguíamos respondendo:
- Parasalvaguardar os direitos humanos...

- Bem, que mais? - perguntava o professor. 

- Para diferençar o certo do errado...  Para premiar a quem faz o bem... 

- Ok, não está mal porém... respondam a esta pergunta: agi corretamente ao expulsar João da sala de aula?...

Todos ficamos calados, ninguem respondia. 

- Quero uma resposta decidida e unânime! 

- Não!! - respondemos todos a uma só voz. 

- Poderia dizer-se que cometi uma injustiça? 

-Sim!!!

- E por que ninguem fez nada a respeito? Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para pratica-las? 

- Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais! 

- Vá buscar o João - disse, olhando-me fixamente.

Naquele dia recebi a lição mais prática no meu curso de Direito.Quando não defendemos nossos direitos perdemos a dignidade e a dignidade não se negocia.

Tribunal Constitucional Alemão pode impor referendo do "pacto de austeridade"

Está à vista mais um volte-face na estratégia engendrada pela senhora Merkel e o senhor Sarkozy que conduziu ao chamado "pacto orçamental", o tratado de austeridade imposto aos países da Zona Euro. O Tribunal Constitucional Alemão pode impor um referendo ou mesmo uma revisão da Constituição para que a invenção seja adotada pelo país da chanceler que a inventou.

Emmanuel Nunes (1941-2012)

Desde há vários dias que estávamos alertados. Hoje, surgiu a notícia da morte, num hospital onde estava internado, em Paris, cidade onde vivia, do compositor português Emmanuel Nunes, aos 71 anos de idade.

Emmanuel Nunes foi a maior figura da música de vanguarda em Portugal, tendo uma carreira académica de grande relevo, durante a qual esteve associado a grandes figuras da música contemporânea universal. Galardoado pelos governos português e francês, foi-lhe também atribuído o "prémio Pessoa" e o prémio de composição da UNESCO.

É reconhecido como a mais importante personalidade musical portuguesa nas últimas décadas, com expressão no âmbito internacional.

Rochefort


Passaram 45 anos. As ruas de Rochefort parecem-se pouco às do filme de Jacques Démy, onde é difícil encontrar uma loja de "frites", como a que madame Ivone por ali mantinha. Estou certo que as "demoiselles de Rochefort" com que nos cruzámos só por um grande acaso conhecerão essa tentativa francesa de emular os musicais americanos, para o que não faltaram mesmo George Chakiris e Gene Kelly. O filme, que há uns meses revi, faz parte de quantos não resistiram ao tempo: é chatote, primário e de uma simplicidade quase amadora, embora pretencioso. Salvam-se as caras larocas, claro.

Já devia ter aprendido, de uma vez por todas, a abandonar este meu perigoso gosto de rever filmes (e alguns livros) que me marcaram a memória longínqua. Saio muitas vezes desiludido do exercício.

Reforma curricular "financeira" colocou milhares de professores nos centros de emprego e não nas escolas

No primeiro dia útil após a saída das listas de colocação de docentes para o ano letivo 2012/2013, os professores não colocados manifestam-se em diferentes centros de emprego do país, e apontam culpas ao Governo, afirmando que a reforma curricular foi "financeira" e "não educativa". As ações de protesto são promovidas pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF). Segundo a federação sindical, cerca de 40 mil professores não foram colocados.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ronaldo, Figo e Nani falham homenagem a Aurélio Pereira

Significado de Ingratidão: s.f. Falta de reconhecimento, de gratidão; qualidade do que é ingrato. Pagar com ingratidão, não ter reconhecimento.

Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci homem de valor que fosse ingrato. Johann Goethe

Há favores tão grandes que só podem ser pagos com a ingratidão. Alexandre Dumas

“A cerimónia de homenagem a Aurélio Pereira não contou com as presenças de Cristiano Ronaldo, Luís Figo e Nani, como estava anunciado. No entanto, Paulo Futre naão deixou de marcar presença, bem como Hugo Viana, Rui Patrício, Daniel Carriço e outros elementos do palntel leonino. A cerimónia contou ainda com a presença de Alexandre Mestre, secretário de Estdo do Desporto, e do presidente da Liga Portuguesa de Furtebol, Fernando Gomes… DN