quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O que está a dar é vender o que é de todos.

O Tribunal Arbitral de Lisboa condenou a Câmara Municipal de Barcelos a pagar uma indemnização no valor de metade do orçamento municipal no prazo de 30 dias à empresa Águas de Barcelos, detida maioritariamente pela construtora Somague. Feitas as contas, no fim do contrato a Câmara vai indemnizar a empresa em 172 milhões de euros.

Roménia: “Pedimos desculpa por não produzirmos tanto quanto nos roubam”

Esta privatização da saúde proposta pelo governo de centro-direita é parte do programa de austeridade, o mais rígido da Europa, imposto em 2009 como condição para receber crédito de 20 mil milhões de euros do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse contexto, os salários dos funcionários públicos foram reduzidos em 25% e houve cortes na segurança social.

Despesa pública não teve desvio colossal, receitas é que afundaram

Segundo "Dinheiro Vivo", suplemento de economia do "Diário de Notícias", o relatório da Unidade Técnica Orçamental (UTAO) da Assembleia da República conclui no relatório sobre a execução orçamental de 2011 que o desvio nas contas públicas se deveu a significativa quebra nas receitas e não a subida da despesa pública.

Risco de bancarrota de Portugal teve a maior subida do mundo

O risco de falência de Portugal disparou nesta quarta feira, em grande parte devido à notícia do "Wall Street Journal", que noticiava a possibilidade de Portugal precisar de um segundo resgate, face aos receios de que o país não seja capaz de regressar aos mercados em 2013. O jornal citava um relatório do Instituto de Finanças Internacional (IFI), o lóbi da finança mundial, que afirmava ser problemático que Portugal emitisse obrigações de longo prazo em 2013 com as taxas acima dos 12%.

Cartas de condução - UE Bruxelas leva Portugal a tribunal por falta de atualização de normas.

Os lobis tem funcionado bem! Os custos para o país e acima de tudo para os cidadãos prejudicados, não interessa para nada, pois as empresas ganharam bem com a dilação dos prazos! Mais uma que agradecemos ao PS, na pessoa de José Sócrates e restante companhia…

A Comissão Europeia decidiu hoje recorrer ao Tribunal de Justiça da UE contra Portugal por não ter atualizado as normas mínimas de aptidão física e mental na legislação nacional das cartas de condição, foi hoje divulgado. As alterações -- adotadas na UE em 2009 -- prendem-se com a revisão das normas mínimas relativas à acuidade visual, à diabetes e à epilepsia -- beneficiando pessoas que sofrem destes problemas -, que Portugal ainda não transpôs para a legislação nacional. Bruxelas enviou ainda um parecer fundamentado (a segunda fase do processo de infração) exigindo que Portugal dê cumprimento a uma diretiva (lei europeia) sobre a introdução de novas categorias de carta de condução e de um prazo de validade harmonizado para o documento. Expresso.

Os mais endividados na União Europeia Irlanda e Reino Unido.

Assunto bem serio e preocupante!
"Por mais paradoxal que pareça, o país que está à beira de uma bancarrota externa, a Grécia, tinha uma dívida total que era, apenas, 267% do seu produto interno bruto (PIB) em meados do ano passado. O que é quase uma ninharia comparada com 663% do PIB para o caso da Irlanda e 507% para o Reino Unido, segundo uma comparação entre oito países da União Europeia, realizada pelo McKinsey Global Institute (MGI) no seu recente relatório "Debt and deleveraging", publicado este mês. A dívida total portuguesa era de 356% do PIB e, neste grupo de oito, ficou em 4.º lugar, depois da Irlanda, Reino Unido e Espanha (com 363% do PIB). Em melhor posição do que Portugal, ficaram França (com 346%), Itália (com 314%), Alemanha (com 278%) e Grécia (com 267%). Por dívida total entende-se a dívida de famílias, empresas, entidades financeiras e governo. Os dados referem-se ao segundo trimestre de 2011 e, no caso português, irlandês e italiano, ao primeiro trimestre do ano passado. No caso da Grécia, o elo mais fraco da zona euro que conduziu ao trilho da bancarrota externa, é a dívida pública, que representava 132% do PIB, mais do que a italiana que pesava 111% ou a francesa que pesava 90%. Nesta comparação, a dívida pública portuguesa pesava 79%. Os dois países com a situação mais grave em termos de endividamento das entidades financeiras em relação à riqueza criada no país são a Irlanda e o Reino Unido. As entidades financeiras irlandesas deviam 259% do PIB e as britânicas 219% do PIB. No caso das portuguesas a dívida é apenas de 55% do PIB. A melhor situação é a grega (7%). No caso do endividamento das empresas, as duas piores situações são a irlandesa, com 194% do PIB, e a espanhola, com 134%. Nesta divisão do endividamento, Portugal vem logo em terceiro lugar, com a dívida das empresas a pesar 128%. A melhor situação é a alemã (49%). Finalmente, no campo do endividamento das famílias, a pior situação é, uma vez mais, a irlandesa, com 124% do PIB, logo seguida do Reino Unido, com 98%, e de Portugal, com 94%. As melhores situações são as de Itália (apenas 45% do PIB) e de França (48%), com uma riqueza líquida das famílias sólida a nível europeu. A título de exemplo, realizando uma comparação com o estudo anterior da consultora (publicado em janeiro de 2010), verificamos movimentos interessantes em três casos simbólicos para os quais há dados comparáveis em dois momentos distintos desta crise em curso. Em Itália o peso do endividamento do governo aumentou dois pontos percentuais do PIB e o das famílias quatro pontos percentuais; nos outros segmentos houve desalavancagem. Em Espanha, apenas aumentou o peso do endividamento do governo, em 15 pontos percentuais do PIB. No Reino Unido, aumentou 22 pontos percentuais do PIB o endividamento do governo e 25 pontos percentuais o endividamento das entidades financeiras. Em resumo, sobre Portugal, avaliando a relação com a riqueza criada anualmente, nesta amostra de oito países "periféricos" e do "centro" da União Europeia: 4.º na dívida total; 3.º na dívida das empresas; 3º na dívida nas famílias; 7.º na dívida pública; 7.º na dívida das entidades financeiras. Comparativamente, as situações mais graves são ao nível das empresas e das famílias. Deduz-se que são os "segmentos" onde a desalavancagem vai ser mais violenta. O estudo do MGI pretende avaliar o esforço de desalavancagem da dívida total em dez países do mundo (Japão, com o maior peso da dívida no PIB, neste grupo, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Canadá, por ordem decrescente de peso da dívida no PIB)." Expresso.

Caso Nuno Simas põe Portugal em 33.º no índice de liberdade de imprensa.

Os responsáveis, pela justiça, e governantes não querem saber…

“Portugal ficou em 33.º lugar no índice de liberdade de imprensa dos Repórteres sem Fronteiras (RSF). A organização denuncia lacunas na proteção das fontes. O responsável da RSF para a Europa e Ásia Central afirma que o caso de Nuno Simas foi fundamental para esta má classificação de Portugal. "Consideramos que foi perigoso o que aconteceu, porque a proteção das fontes foi posta em causa." Joahnn Bihr sublinha que sem a garantia de que a identidade das fontes pode ser protegida, os jornalistas deixam de conseguir fazer o seu trabalho. "A posição de Portugal não é a melhor, mas há países da União Europeia que ficaram abaixo da posição 50", frisa Bihr. O Expresso noticiou a 27 de agosto que o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) "espiou" o telemóvel de Nuno Simas "com o objetivo de descobrir as eventuais fontes do jornalista", tendo tido acesso à fatura detalhada das chamadas e das mensagens. No topo da tabela deste ranking estão a Noruega e a Finlândia e no fim a Eritreia. À frente de Portugal estão países como Cabo Verde (9.º lugar), Uruguai (32.º), Níger (29.º).Expresso.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Irão


A questão nuclear iraniana é suficientemente séria para justificar, em absoluto, a imposição das sanções agora decididas pela União Europeia. A UE deu mostras de um grande sentido de responsabilidade ao conseguir gerar um compromisso interno em torno do novo quadro de sanções. Depois das concludentes análises feitas pela Agência Internacional de Energia Atómica ao programa nuclear iraniano, seria altamente perigoso deixar o respetivo regime prosseguir, sem uma forte reação, o seu caminho em direção à arma nuclear.

Alguns, inocentes ou de má fé, dirão que a legitimidade de Teerão querer possuir a arma nuclear é, pelo menos, idêntica à de outros Estados que também a obtiveram por meios menos claros, sem que, por isso, se sujeitem a um controlo ou a uma pressão internacional de idêntica natureza. Custa ter de assumir isto, mas uma atitude de meridiano realismo leva à necessidade de pensar que, qualquer que seja o panorama nuclear global, o aparecimento de novos atores nesse "mercado" é um risco que deve ser evitado a todo o custo. E que esgrimir juízos de mera equidade, numa área com a delicadeza do tema nuclear, é um suicídio a prazo.

Pena é que países como a China ou a Rússia, a quem, manifestamente, a nuclearização do Irão nada interessa no plano estratégico, não tenham querido, a tempo e horas, aliar-se a uma pressão internacional sobre Teerão, no quadro da ONU. Se a troca de argumentos conjunturais com as potências ocidentais não tivesse prevalecido sobre um mínimo de razoabilidade, talvez se pudesse ter evitado a situação a que hoje se chegou, agora acrescida com novos e graves riscos envolvidos.

É que, para além da tensão militar no Golfo, de que o sinal mais evidente é a situação que se vive no estreito de Ormuz, a inevitável subida do preço do petróleo vai acabar por traduzir-se num peso acrescido sobre o esforço de recuperação da economia internacional. Resta esperar que nenhum tropismo belicista, quiçá mobilizado por agendas políticas nacionais, venha ainda somar fogo às chamas.
 

RDP termina programa de opinião que criticou subserviência do Governo em relação a Angola

O espaço de opinião onde se inscrevia a crónica de Pedro Rosa Mendes, "Este tempo", está no ar há dois anos e era assegurado por cinco pessoas: Pedro Rosa Mendes, António Granado, Raquel Freire, Gonçalo Cadilhe e Rita Matos, que, ao se sabe, já terão sido informados desta decisão.

10 anos de Guantánamo: O prisioneiro e o procurador

Há dez anos, Omar Deghayes e Monis Davis teriam sido vistos por qualquer um como um par estranho. Embora nunca se tivessem encontrado, partilham agora de uma ligação profunda, cimentada pelo tempo que passaram na notável prisão militar americana na Baía de Guantánamo, em Cuba. Deghayes esteve lá como prisioneiro. O Coronel da Força Aérea, Monis Davis esteve lá como procurador-geral das comissões militares de 2005 a 2007.

Bloco propõe cessação das cobranças coercivas

"Esta cobrança é injusta e, em alguns casos, de legalidade duvidosa", diz o projeto de resolução bloquista, apontando as leis que determinam que "qualquer ato administrativo ilegal de atribuição de prestações sociais é revogável pelo prazo de um ano".


Notificações tiram 570 euros a cada beneficiário

 
Para além das 117 mil cartas já enviadas, o Ministério de Pedro Mota Soares promete ir buscar dinheiro a casa de mais 883 mil beneficiários da Segurança Social, alegando que receberam por engano uma ou mais prestações sociais e sugerindo que provem o contrário para escapar ao pagamento. Na prática, um em cada dez portugueses terá de recuar vários anos para conseguir encontrar a documentação que lhe permita provar junto dos serviços que nada recebeu a mais e que por isso nada deve.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Emigre você, Senhor Primeiro Ministro !

"Emigre você, Senhor Primeiro-Ministro."  

Carta publicada e dirigida ao Primeiro-Ministro, por Myriam Zaluar, investigadora com um ordenado fixo de 405 euros e apenas durante sete meses por ano. Fez 42 anos no dia em que resolveu responder, ao apelo de emigração de Passos Coelho.  

"Exmo Senhor Primeiro-Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira "congelada". Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado "fixo" 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, Senhor Primeiro Ministro, só tinha 24 horas...

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor Primeiro-Ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, Senhor Primeiro-Ministro. A Universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, Senhor Primeiro-Ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, Senhor Primeiro-Ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, Senhor Primeiro-Ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, Senhor Primeiro-Ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...

Mas hoje, Senhor Primeiro-Ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, Senhor Primeiro-Ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o Primeiro-Ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, Senhor Primeiro-Ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, Senhor Primeiro-Ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, Senhor Primeiro-Ministro: emigre você, Senhor Primeiro-Ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, Senhor Primeiro-Ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.

Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, Feliz Natal OU Feliz Ano Novo à sua escolha, Senhor Primeiro-Ministro. E como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.

Myriam Zaluar, 19/12/2011"

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Vamos todos pagar para poder pagar portagens nas SCUT

Os automobilistas começaram este mês a pagar portagens nas SCUT, mas, ao contrário do que foi anunciado, a fatura para os contribuintes não só não diminuiu, como disparou 10 mil milhões de euros.

Hospital de Cascais poderá despedir 200 profissionais.

O deputado do Bloco João Semedo questionou o Ministério da Saúde sobre a redução de atividade no Hospital de Cascais, cortes entre os 15 e 20 por cento nas consultas e urgências que colocam em risco de despedimento 200 profissionais.
Esta tem sido uma das parcerias público-privadas (PPP) mais polémicas, a par da unidade de Braga, que coleciona já inúmeras infrações e multas. Para 2012, os encargos brutos previstos com as PPP são de 320 milhões de euros.

Foi notificado pela Segurança Social? Descarregue aqui uma reclamação tipo.

Nas últimas semanas mais de 117 mil notificações saíram do Instituto da Segurança Social avisando os beneficiários que tinham 30 dias para devolver o dinheiro ao Estado ou teriam a prestação social reduzida, cortada ou seriam penhorados. O Bloco de Esquerda disponibiliza a todos os cidadãos e cidadãs uma minuta de reclamação à Segurança Social que pode ser preenchida e enviada aos serviços. Clique no link para descarregar minuta. Esquerda

João

- "Ó homem! Você descanse! Esses lugares são infernais!"

- "Vou ver se aproveito o fim de semana..."

Este final de conversa telefónica, comigo a dar o conselho, teve lugar ao início da noite da passada 5ª feira. O João Teotónio Pereira, chefe de gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros, tinha sempre a atenção de me responder no próprio dia às chamadas que eu lhe fazia para o gabinete (raramente ligo para telemóveis de quem tem muito que fazer), talvez porque soubesse que nunca o incomodava por razões fúteis. Dessa vez, a conversa foi sobre dois temas de política externa que eu lhe havia anunciado como delicados, que nada tinham a ver com a França, mas que eram suficientemente importantes para, através do João, serem transmitidos ao nosso ministro. Interessou-se por eles e prometeu fazê-lo, logo que possível.

Já o tinha dito a amigos comuns: desde há meses, sentia o João cada vez mais cansado na voz, talvez stressado pelo ritmo intenso de um trabalho a que se dedicava com afinco e empenhamento. O João era um homem intenso, preocupado com tudo, diligente ao pormenor, de uma lealdade à prova de bala em relação ao seu e nosso ministro.

O João Teotónio Pereira era senhor de um sorriso saudável, num fácies "boyish", de uma alegria natural que promovia a relação pessoal e abria, com facilidade, a porta à amizade. Éramos de gerações diferente, nunca trabalhámos juntos - saiu de Paris, onde foi cônsul-geral, uma semana depois da minha chegada, o que só me deu tempo para lhe oferecer um breve almoço de despedida - mas tivemos sempre um excelente relacionamento, marcado pelo respeito e pela amizade. Nunca esqueci gestos de solidariedade que teve para comigo, em tempos menos fáceis.

Ontem, o coração deixou o João, aos 51 anos, no fim da linha da vida.

Wikipedia lidera apagão digital contra leis antipirataria


Se é um dos 25 milhões de utilizadores diários da versão inglesa da Wikipedia, o sexto portal com maior número de visitantes em todo o mundo, amanhã terá que escolher outra forma de pesquisar informação. A maior enciclopédia digital vai fazer uma greve de 24 horas, em sinal de protesto contra as propostas legislativas contra a pirataria informática em debate nos EUA, e estará inacessível a partir das 2 da manhã em Portugal continental.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Deixar o Pingo Doce? Não. Deixar a EDP é que é.

Um amigo chega, sobe ao caixote dos indignados (o caixote preferido da pátria) e anuncia com pompa: "pá, vou deixar de ir ao Pingo Doce". Pois, com certeza, meu caro, está no seu direito, mas isso é uma parvoíce. "Bla, bla", raios e coriscos, "és isto e aquilo, pá" e demais bla, bla dos indignadinhos de cadeirão. Sim, meu caro, esse boicote ao Pingo Doce não faz sentido. A Jerónimo Martins é uma empresa que está na vidinha (vulgo: mercado) sem apoios, proteccionismos ou monopólios garantidos pelo Estado. Não, não vou deixar o Pingo Doce. E até lhe digo outra coisa: a sua indignação está com a mira desfocada. O que quero dizer com isto? Que não vou deixar o Pingo Doce, mas irei fazer tudo para deixar de ser cliente da EDP, uma empresa que não está na vidinha, uma empresa que viveu sempre com base num monopólio protegido pelo Estado e que, aliás, se prepara para continuar a ser protegida pelo Estado. Ah? Como? Não, não me importo de explicar. O problema das recentes nomeações não acaba nos ordenados pornográficos pagos por uma empresa monopolista. O problema acaba num ponto tão ou mais preocupante: os novos donos da empresa já perceberam como é que as coisas funcionam aqui na terrinha, isto é, já perceberam que é bom ter gestores-que-são-políticos-com-o-número-de-telemóvel-privado-do-primeiro-ministro-e-demais-ministros. E quem é que se trama no meio disto? O consumidor de electricidade, isto é, o português comum. Todos nós. A troika e partes deste governo , meu caro, já perceberam que andámos a navegar numa enorme falácia: "ah, nós estamos a gerar energia verde que é exclusivamente nacional, logo, diminuímos importações". Que bonito, ah? Sucede que a EDP, o dr. Mexia, o dr. Pinho e aquele-que-não-menciono-pelo-nome esqueceram sempre um ponto: quais são os custos dessa diminuição de importação de energia? Os custos são elevadíssimos para o consumidor privado e para as nossas empresas, que têm de pagar uma electricidade caríssima por causa dos subsídios verdes que o anterior governo garantiu à EDP. E o défice energético continua a aumentar (ou seja, vamos pagar ainda mais). Ora, assim que aterrou na Portela, a troika mandou acabar com esta brincadeira. E, repito, partes deste governo parecem mobilizadas para a luta contra a EDP.  Então, meu caro? Já percebeu o alcance das nomeações? Seja como for, espero que compreenda o seguinte: não, não estou chateado com o Pingo Doce, mas garanto-lhe que irei procurar um balcão da Iberdrola ou da Endesa, garanto-lhe que vou deixar de ser cliente da EDP, uma empresa que não precisa de ir para a Holanda, porque tem um monopólio de bens não-transaccionáveis em Portugal. Como dizia o outro, estou no meu direito.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)