Mostrar mensagens com a etiqueta Opiniões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Opiniões. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Conheça a história da relação entre Cavaco e Salgado

PR tem sido criticado por ter dito em Julho que o banco estava estável. No domingo justificou que só pode saber do que se passa verdadeiramente no banco quando o governo ou as entidades oficiais lhe comunicam.

O Presidente da República respondeu este fim de semana a quem o acusa de ter induzido em erro os pequenos investidores que compraram acções do BES poucos dias antes da decisão de recapitalização do banco. Cavaco Silva justificou que as suas declarações de Julho, dando conta que o BES estava estável, tinham por base a informação oficial de que dispunha e adiantou mesmo que espera ter sido avisado atempadamente pelo executivo de Passos Coelho e pelas entidades oficiais assim que houve conhecimento dos reais problemas do banco. Os canais de informação, porém, entre Cavaco e o universo Espírito Santo sempre existiram. Nesta última declaração, o chefe de Estado disse não ter “ministérios”, “serviços de execução política”, nem “serviços de fiscalização ou investigação” para conseguir informação além da que o executivo lhe disponibiliza. Mas desde há muitos anos que são conhecidas as ligações com a família Espírito Santo e a amizade com Ricardo Salgado.

O i foi recuperar o início de uma relação entre professor e aluno que começou na década de 60 e os encontros que mais tarde começaram a traçar uma maior proximidade: desde jantares privados a apoios financeiros à corrida a Belém de 2006.

A REUNIÃO DAVOS

O mediático encontro de 1989 num hotel da Suíça foi um marco nas relações entre o banqueiro e o então primeiro ministro, mas não o início. Salgado já havia sido aluno de Cavaco no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG) na década de 60. É, no entanto, naquela reunião que é comunicada por Salgado e Manuel Ricardo Espírito Santo a Cavaco Silva a intenção da família de retomar parte do império perdido. O chefe do executivo encontrava-se naquele país para estar presente no Fórum Mundial de Davos. Nos últimos 20 anos muita coisa tinha mudado e é ali – no bar do pequeno hotel encerrado para aquela reunião – que Cavaco fica a conhecer os planos da família Espírito Santo para o futuro próximo. Queriam regressar a Portugal com o objectivo de ganhar a privatização do Banco Espírito Santo Comercial de Lisboa – nacionalizados em 1975 – no âmbito da política de liberalização económica promovida pelos governos de Cavaco.  

PRESSÃO PARA CANDIDATURA A BELÉM

O retorno em força dos Espírito Santo ao país acontece dois anos depois da reunião no hotel da Suíça, ainda durante o executivo liderado por Cavaco Silva. Mas se até então as conversações poderiam não passar de meras formalidades, as dúvidas ficam desfeitas quando anos mais tarde, em 2004, Salgado convida Cavaco para um jantar na casa do Estoril, onde em Julho deste ano foi detido no âmbito da Operação Monte Branco.

Aníbal Cavaco Silva chegou com a sua mulher ao jantar onde além de Ricardo Salgado estava Durão Barroso – então primeiro-ministro –, Margarida Sousa Uva, Marcelo Rebelo de Sousa e Rita Amaral Cabral.

Na altura o semanário “Expresso” adiantou que o convite tinha como objectivo “pressionar Cavaco a candidatar-se às eleições presidenciais [de 2006]”. O banqueiro terá referido nesse encontro que a presença de Cavaco em Belém seria importante para o país, uma vez que se encontrava numa situação económico-financeira cada vez mais complicada.

A conversa privada rapidamente se tornara pública, uma vez que dentro do PSD havia movimentações para a corrida a Belém e alguns sectores do partido estavam preocupados com a possibilidade de Pedro Santana Lopes avançar.

Contactado então pelo “Expresso”, Ricardo Salgado confirmou o encontro e admitiu a existência de uma relação de amizade: “[Tratou-se] de um jantar privado de casais que têm laços de amizade.”

MAIS QUE AMIZADE

Mas o apoio à candidatura não se ficou pelas palavras dessa noite. Ricardo Salgado fez questão de, no ano seguinte, doar o máximo permitido por lei à candidatura de Cavaco – que entretanto já havia anunciado que estava na corrida a Belém. De acordo com o “Diário de Notícias”, que consultou as contas das campanhas de 2006, a família Espírito Santo foi uma das grandes financiadoras do actual Presidente da República, tendo doado 104 928 euros – o que representa mais  de 5% do total. Só Salgado doou 22 482 euros, o máximo então permitido por lei. O banqueiro foi mais longe que Oliveira Costa, então presidente do BPN, que apenas doou 15 mil euros.

Os apoios da banca a Cavaco não foram exclusivos da família de Ricardo Salgado, mas os dos Espírito Santo foram exclusivamente para Cavaco. Segundo o mesmo jornal, por exemplo, a candidatura de Mário Soares – ainda que tenha tido financiamento da banca – não recebeu qualquer donativo proveniente do universo Espírito Santo.

Ainda assim, no livro “O Último Banqueiro” é referido que Ricardo Salgado também terá incentivado Soares a concorrer contra o social-democrata. Apesar de haver mais apoios para uns que para outros, a obra refere que o objectivo do banqueiro era que o BES fosse “o banco de todos os regimes”.  

UMA RELAÇÃO QUE SE MANTEVE

Apesar de  dizer várias vezes que o banco agradava a todas as cores políticas, a verdade é que Salgado volta a dar a mão a Cavaco em 2010. Num evento organizado pelo “Económico” o banqueiro defendeu a recandidatura: “O presidente Cavaco Silva é uma referência nacional. Acho que se deve recandidatar.” As contas das presidenciais de 2011 ainda aguardam publicação de acórdão, pelo que não são conhecidos os valores das doações.

Outros factos comprovam a proximidade entre o Presidente da República e os Espírito Santo. Um deles foi a compra do Pavilhão Atlântico pelo consórcio liderado por Luís Montez, o empresário de comunicação genro de Cavaco Silva, numa operação financiada pelo BESInvestimento.

Cronologia

1989 Cavaco Silva, então primeiro-ministro, e Ricardo Salgado encontram-se na Suíça, juntamente com Manuel Ricardo Espírito Santo. Os membros da família Espírito Santo revelam que têm vontade de regressar ao país e assumir novamente a Tranquilidade e o Banco Espírito Santo.

2004 Um jantar na casa do Estoril de Ricardo Salgado juntava o primeiro ministro Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa e Cavaco Silva. O “Expresso” noticiou que o encontro tinha a finalidade de mostrar apoio à candidatura de Cavaco nas eleições presidenciais de 2006.

2004 Cinco membros da família Espírito Santo doaram mais de 104 mil euros à Campanha de Cavaco. Segundo o “Diário de Notícias”, a família Espírito Santo foi mesmo uma das grandes financiadoras, representando mais de 5% do total doado a Cavaco Silva. Salgado doou o máximo permitido, na altura, por lei: 22 482 euros.

2010 Ricardo Salgado pressiona Cavaco a recandidatar-se à presidência da República. E chega a dar a sua posição em público, num evento organizado pelo “Negócios”: “O Presidente Cavaco é uma referência nacional. Acho que se deve recandidatar”. Cavaco respondeu, numa entrevista à RTP a partir de Luanda, dizendo que ira pensar em família nesse cenário.

2014
21 Julho - Durante uma viagem à Coreia do Sul, Cavaco acalma os ânimos e diz que o BES está estável. Adianta que a entidade bancária não é permeável aos problemas do Grupo Espírito Santo.
03 Agosto - É anunciada a recapitalização do Banco Espírito Santo e a sua divisão em dois bancos: um bom e um mau.  
07 Setembro - Após criticas de que terá induzido investidores em erro ao dizer que o banco estava estável, Cavaco reage dizendo que as suas declarações tinham em conta as informações que lhe foram prestadas pelo executivo de Passo Coelho, bem como pelas entidades oficiais. Disse esperar que o Governo lhe tenha dado as informações assim que teve acesso .

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, (Olá! camaradas Sócrates...Olá! Armando Vara...), que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.
Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, em governação socialista, distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.
Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora continua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido.
Para garantir que vai continuar burro o grande "cavallia" (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.
Gente assim mal formada vai aceitar tudo, e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.
A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.
Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.
Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.
Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado.
Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.
Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituamo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.
E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?
Vale e Azevedo pagou por todos?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?
As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.
E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?
E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu? Alguns até arranjaram cargos em organismos da UE.
Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?
E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.
Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.
Ninguém quer saber a verdade.
Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.
Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.
Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Clara Ferreira Alves - "Expresso"

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Inexplicável? É o fungágá da bicharada

Aurora Teixeira

Sexta feira, 8 de agosto de 2014

Para o ministro da Economia, Pires de Lima, o acontecimento do BES é  'inexplicável '. Segundo o governante, parece inevitável que os investidores, sobretudo os estrangeiros (?!), reajam negativamente tendo de fazer a 'digestão' de tudo aquilo que se passou. Adianta, para nosso desassossego, que está a seguir "com muita atenção o que se está a passar nos mercados"...

As reações internas ao caso BES, sobretudo centradas na  actuação do Banco de Portugal  e do seu Governador, deixam um actor (a meu ver, chave) neste processo, o Goldman Sachs, 'passar pelos pingos da chuva'.

O que parece estar por explicar é a " meteórica passagem " do Goldman Sachs pelo capital qualificado do BES. É de estranhar que o banco norte-americano após ter entrado, em 15 de julho do corrente ano, no capital accionista e ter incentivado outros a investir no BES, contribuindo para uma momentânea valorização das acções deste último, em 23 de julho, ou seja poucos dias antes da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ter decidido a suspensão da negociação dos títulos em bolsa, tenha vendido mais de 4 milhões de ações do BES.

Tal situação levanta desde logo a suspeição de "insider trading", isto é, negociação de valores mobiliários baseada no conhecimento de informações relevantes que ainda não são de conhecimento público, com o objetivo de auferir lucro ou vantagem no mercado. Apesar da CMVM ter aberto, no dia 1 de agosto, um processo de " investigação aprofundada da negociação dos títulos do BES... para apurar a eventual existência de indícios de violação do dever de defesa do mercado e/ou de crime de utilização de informação privilegiada ", é pouco provável que daqui se retirem algumas consequências relevantes.

Esta atuação do Goldman Sachs no caso BES não representa um evento excepcional. Pelo contrário, a história deste banco norte-americano é pautada de inúmeros 'casos' e passagens por 'portas giratórias' (entre política e finanças) que favorecem o 'insider trading' e o 'inside job'.

Abutres

O Goldman Sachs tem surgido, direta ou indiretamente, relacionado com as mais polémicas operações desde que eclodiu a crise financeira: entre outras, o swap grego ou o caso Abacus.

A troco de uma elevada comissão, a partir de 2002, o Goldman Sachs 'ajudou' a Grécia a encobrir os reais números do défice, através de 'swaps' cambiais com taxas de câmbio fictícias, o que na prática permitiu a este país aumentar a sua dívida sem reportar esses valores a Bruxelas. Em 2005 vendeu os 'swaps' a um banco grego protegendo-se assim de um eventual incumprimento por parte de Atenas. No início de 2010, e ao mesmo tempo que desempenhavam a função de consultores dos Governos, os analistas do Goldman recomendaram aos seus clientes a aposta em 'credit-default swaps' (CDS) sobre dívida de bancos gregos, portugueses e espanhóis. Estes CDS são instrumentos que permitem ganhar dinheiro com o agravamento das condições financeiras de determinado país.

O Abacus foi o nome que o Goldman Sachs deu a um produto financeiro composto por hipotecas subprime de muito má qualidade que supostamente colocou à disposição de um dos seus melhores clientes, o hedge fund de John Paulson, que entretanto apostou contra o produto enquanto os clientes que investiam de verdade no produto sofreram avultadas perdas. Para evitar uma investigação sobre o caso o Goldman Sachs aceitou pagar, em julho de 2010, 550 milhões de dólares (coisa pouca se se tiver em consideração que o hedge fund arrecadou cerca de mil milhões de dólares numa única aposta).

De acordo com o  Wall Street Journal , o Goldman Sachs era, em 2013, o único banco no top 10 (era o 3º) dos designados 'fundos abutre' (vulture funds). Um 'fundo abutre' é um hedge fund que investe em títulos (dívida) considerados muito fracos ou de entidades em iminente default/incumprimento. Mesmo entidades com um elevado nível de alavancagem podem ser alvo de um 'fundo abutre' se existir alguma possibilidade dos seus proprietários não cumprirem a totalidade dos pagamentos. Como o nome indica, estes fundos são como abutres que sobrevoam pacientemente o cadáver, esperando se apoderar do respectivo remanescente. O objectivo é a obtenção de elevados retornos a preços de saldo.

Tartarugas e polvos

O carácter metódico e prudente do Goldman Sachs, complementado por um dos seus lemas - 'apressar-se lentamente' -, valeram-lhe, em tempos, a alcunha de ' tartaruga '. A onda de desregulamentação financeira dos anos 1980 transformou a 'tartaruga' em 'polvo', com diversos ex-proprietários do banco a ocuparem importantes postos políticos em diferentes áreas do governo e em diversos países.

Robert Rubin, ex-diretor do Goldman Sachs, e acérrimo defensor da desregulamentação, foi ministro das Finanças (1995-1999) de Bill Clinton. Henry Paulson, ex-proprietário do Goldman Sachs, principal arquitecto do resgate do sistema bancário, foi ministro das Finanças (2006-2009) de George W. Bush.

Romano Prodi, ex-primeiro ministro italiano, e Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu BCE), tinham sido, respetivamente, conselheiro e vice-presidente do Goldman Sachs para a Europa.

Os tentáculos do Goldman Sachs chegaram também a Portugal.

Carlos Moedas, conhecido como o 'ministro da troika', recentemente escolhido por Passos Coelho para ser o próximo comissário português em Bruxelas, passou pelo Goldman Sachs onde conheceu António Borges que, entre 2000 e 2008, foi Vice-Presidente do Conselho de Administração do Goldman Sachs International e que, em 2012, foi convidado por Passos Coelho a liderar uma equipa que acompanhou, junto da troika, os processos de privatizações, as renegociações das parcerias público-privadas, a reestruturação do sector empresarial do Estado e a situação da banca.

O BES também não escapou. João Moreira Rato, ex-Presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP), que conta no currículo com uma passagem pelo Goldman Sachs, foi recentemente 'promovido' a administrador financeiro do 'banco bom'/Novo Banco.

Fica-se assim daqui com a ideia de que os que provocaram o incêndio são os mesmos que são chamados para o apagar...

Uma verdadeira tragicomédia. Ironizando, com recurso às palavras do filósofo-cantor português, José Barata Moura, é o fungágá da bicharada!

"Vamos também descobrir uns amigos bestiais
Bem diferentes dos habituais
E vamos rir até não poder mais
Com as palhaçadas dos amigos animais
É o fungágá, fungágá da bicharada
É o fungágá, fungágá da bicharada
la la la la la la la la ra la la"

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/inexplicavel-e-o-fungaga-da-bicharada=f885253#ixzz39nLWAhH3

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Zainal

em “A escolha da liberdade”,  de AM,  Zainal, o heroi catteni afirma:

“Mas eu fui largado. Logo, fico”

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A queda de um Santo, por Pedro Santos Guerreiro.

Ricardo Salgado acaba mal e acaba só. O grande banqueiro era afinal péssimo gestor, arruinou um grupo familiar de 145 anos e saiu expulso do BES. Mas não há vazios de poder: quem dominará agora? Quem vai ser o Dono Disto Tudo? Este texto propõe uma resposta.

Talvez seja apenas um mito e Mayer Amschel Rothschild não tenha mesmo dito aquela frase no século XIX: "Deem-me o controlo do dinheiro de uma nação e pouco me importarei com quem faz as suas leis." Ficou a frase infame e a família famosa, os Rothschild, que já não são os banqueiros mais importantes da Europa mas cuja descendência prevalece.

No mesmo século XIX, uma família portuguesa de banqueiros era fundada por um órfão, a quem por isso mesmo chamaram de Espírito Santo, e que atingiu o ponto mais alto da sua influência já no século XXI. Depois - agora - os negócios faliram, num escândalo internacional de desonra. A família perde tudo. O movimento é tão poderoso que pode significar uma mudança de regime na economia portuguesa. Há uma rede de poder que desaba. Outra emergirá. 

Como foi possível que um império tamanho se perdesse entre dois verões, sem invernos que anunciassem a ruína ou primaveras que a redimissem? Talvez a resposta esteja noutra pergunta: como foi possível sequer construir este império tamanho? A resposta é, agora, fácil: não foi possível. Não era um império. Era um conglomerado descapitalizado, opaco e mal gerido. A plácida cascata de ativos, que criou um sistema de minorias acionistas encadeadas que garantia o controlo familiar com pouco capital, tornou-se uma torrencial cascata de passivos. 

É impressionante tudo ter acontecido debaixo dos olhos da comunidade, incluindo poderes políticos, reguladores, auditores, concorrentes. Ao contrário do BPN, que "sempre se soube", no BES nunca se soube de nada. Escrevia-se sobre a opacidade e a complexidade do grupo, mas não havia denúncias nem sequer suspeitas conhecidas. O poder do BES era imenso. E era um poder de um homem, Ricardo Salgado, 70 anos acabados de fazer. Sintomaticamente, o líder da família desde o final dos anos 80 não tinha número dois. Era costume dizer-se que o BES era como um comité central do Partido Comunista, não havia "vices", havia o líder e o resto. Era um poder total, bajulado e quase incontestado. 

O poder hegemónico

A primeira vez que falei sobre o assunto foi em julho de 2009, há cinco anos, num encontro à porta fechada do Projeto Farol, que decorreu no Pavilhão de Portugal. O Farol, um think tank liberal, convidara-me para fazer uma apresentação sobre fatores de bloqueio da economia portuguesa e eu escolhi o BES. Na minha tese, o problema não era o BES ser poderoso, era ser hegemónico.

O jornalista José Manuel Fernandes estava no encontro e, mais tarde, convidou-me para escrever essa análise para o Anuário da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde está publicada. Dos três eixos de poder da década anterior, restava um: o BCP, muito ligado à Teixeira Duarte, Cimpor, EDP e depois à Caixa, Berardo, Fino, estava prostrado; o BPI, muito ligado a grandes empresas do Norte, incluindo o Grupo Sonae, tinha-se virado para Angola; restava o BES e a sua linha de poder com a Portugal Telecom, Ongoing, Mota-Engil, mais tarde a EDP e José Sócrates.

A falta de oposição entre eixos financeiros permitira uma afirmação do BES que, juntamente com o BCP e a Caixa, lucraram muitos milhões concedendo crédito no imobiliário e nas obras públicas, onde estariam a maior parte dos grandes problemas da economia, com malparados gigantes, obras paradas a meio, transferências para fundos de reestruturação.

Nessa minha tese, estes bancos haviam "fabricado" lucros, dividendos e prémios de gestão. Os créditos, que constituíam lucro nos primeiros anos, virariam graves prejuízos no futuro. Os bancos foram sendo esventrados. No ano 2000, BES, BCP, BPI e Banif valiam em Bolsa um total de 18 mil milhões de euros. Os mesmos bancos valem hoje menos de sete mil milhões. Apesar de muitos dividendos entretanto pagos, a destruição de valor é evidente. Houve aumentos de capital em catadupa.

É hoje possível argumentar que, apesar de a intervenção externa de 2011 se ter feito por causa das contas do Estado, ela acabou por permitir uma gestão controlada e até disfarçada dos problemas enormes que estavam nos balanços dos bancos. Já foram reconhecidas nas suas contas mais de 24 mil milhões de euros de perdas reais e potenciais. E é essencial perceber isto para compreender o que se passou no Grupo Espírito Santo. 

Paradoxalmente, a devastação na economia portuguesa que foi acelerada com a intervenção externa de 2011 não havia produzido até aqui nenhuma grande falência. Houve algumas construtoras de média dimensão, empresas de turismo e de imobiliário a caírem ou a serem resgatadas, mas não houve nenhuma queda abrupta de um grande grupo. Na verdade, tal foi sendo possível precisamente pela gestão controlada da banca. Muitas empresas zombie foram sendo transferidas para fundos de reestruturação, outras tiveram as suas dívidas reestruturadas, sempre com perdões indiretos da banca. Na maior parte dos casos, porque os próprios bancos não queriam (ou não podiam) assumir todas as perdas, sobretudo numa altura em que a pressão regulatória europeia obrigava a sucessivos aumentos de capital para garantir rácios de solvabilidade. Em muitos outros casos, porque o "sistema" funciona assim: preserva-se. 

Assim foi com aquele que teria sido o maior estoiro na economia portuguesa: o Grupo José de Mello. O caso foi então noticiado mas estranhamente teve pouco impacto na sociedade. Por causa do corte do rating do Estado para nível lixo, em 2011, os bancos estrangeiros exigiram o pagamento imediato de empréstimos a muitas empresas portuguesas. Ao Grupo Mello foram exigidos mil milhões de euros, o que tendo em conta a quebra das receitas da empresa e o desequilíbrio entre ativos e passivos a colocou num estado crítico, sendo necessário "entrar" com o próprio património da família e, mais tarde, retirar a Brisa de Bolsa para a revalorizar e aceder a mais dividendos.

O problema ainda hoje não está ultrapassado, embora esteja controlado. Mas nada disso teria sido possível se, em 2011, o Grupo José de Mello não tivesse tido o apoio dos bancos portugueses, que então substituíram os bancos estrangeiros como seus financiadores. O trio do costume, Caixa, BCP e BES injetaram mil milhões no grupo, que assim pôde pagar aos bancos estrangeiros Santander, Deutsche Bank e Société Générale. 

A grande falência aparece agora e é muito maior: o Grupo Espírito Santo. Inteiro. Uma derrocada, de cima para baixo. Mas como? Assim: anos e anos de prejuízos não assumidos, operações que não geravam cash flow, investimentos nunca recuperados à custa de dívida sobre dívida nas próprias participadas, que ficavam pendurados nas contas como se estivessem bem. Pura má gestão e algumas ligações perigosas, com Angola à cabeça. Mas as holdings de topo, com contas opacas e triangulando várias praças financeiras, escondiam uma montanha de passivo, para mais agravada com dívidas que não estavam registadas nas contas, num total de 1,3 mil milhões de euros, o que pode constituir prática criminal.

A situação tornou-se insuportável quando a dívida, além de ser grande, passou a ser em grande parte de curto prazo. O famoso papel comercial tornou a pressão sobre a tesouraria intolerável e sujeita a enorme risco. Pior do que isso: contaminou o BES. 

Como a família perdeu o BES

Foi assim que a família perdeu o controlo do banco, primeiro na gestão, depois na própria posse das ações. Se os problemas de dívida no Grupo Espírito Santo eram já enormes, o contágio ao banco foi um passo deliberado e aconteceu no último ano. Talvez fosse uma última tentativa de evitar a rutura, mas transmitiu o problema das holdings de topo pela cascata abaixo até ao banco, o que constitui um pecado mortal e dificilmente compreensível. 

A falência poderia ter sido apenas da holding ES International, o que seria um escândalo que arrastaria a família Espírito Santo, mas não contaminaria as empresas nas holdings inferiores. 

Mas, no início deste ano, Ricardo Salgado começou a transferir os passivos da ES International para a RioForte, contaminando-a irremediavelmente. A Espírito Santo Financial Group e o BES concederam crédito às holdings de cima, ficando também desse modo contaminadas. E o BES expôs os seus próprios clientes ao risco, quando os pôs a financiar o GES, primeiro através de fundos de investimento como o ES Liquidez, depois através do papel comercial. Era difícil ter sido mais destrutivo.

Se o Banco de Portugal não tivesse forçado a constituição de provisões para pagar aos clientes de retalho do papel comercial, a hecatombe dos clientes teria sido devastadora. Um BPP multiplicado muitas vezes. 

O que levou o GES à crise revela no mínimo incompetência, mas a própria gestão da crise desde o fim do verão do ano passado foi desastrosa, revelando uma equipa bloqueada, em negação e obcecada por uma guerra interna de sucessão. Como criticou Fernando Ulrich recentemente, a informação financeira foi sendo relevada aos poucos, cada comunicado trazia um novo número, nunca houve transparência total e tudo isso gerou uma desconfiança insanável dos mercados, sobretudo depois de os investidores terem acreditado no BES para um derradeiro aumento de capital de mil milhões de euros há cerca de dois meses. Esses investidores sentem-se enganados. Têm boas razões para isso. Mas houve mais: foram sendo anunciados aumentos de capital na RioForte que nunca aconteceram, vendas em Bolsa que não ocorreram, reestruturações que não existiram. Tudo colapsou, estrondosamente. 

A melhor definição que ouvi até hoje sobre o sistema de poder económico em Portugal foi dada por Paulo Morgado, líder da filial portuguesa da Cap Gemini. Mais do que uma estrutura hierárquica piramidal, ou de que um polvo com tentáculos, o poder em Portugal assenta num sistema em rede. É, descreveu Paulo Morgado, como um jogo de micado: vários paus cruzam-se e é quase impossível mexer num sem tocar noutros.

Essa interdependência serviu ao mesmo tempo de rede de sustentação e de força de resistência passiva. Ninguém ousava dar um murro na mesa e atirar as peças de micado todas pelos ares, o efeito sistémico seria imprevisível. A falência do Grupo Espírito Santo e o afastamento da família é esse murro na mesa e sim, tem efeito sistémico, porque arrasta centenas de empresas com milhares de trabalhadores. Alexandre Soares dos Santos já disse que o efeito é "brutal, brutal, brutal..." 

Hoje, Ricardo Salgado é um homem só. Poucos dos seus aliados ainda o são, muitos dos seus mais próximos já deixaram de o ser. Começou por aqueles que eram enfeitiçados pelo dinheiro ou mesmo pagos pelo Grupo: esfumaram-se. Passou depois para os amigos, para a família, para os clientes, para dentro do banco.

É preciso perceber a mitificação que existia à volta de Ricardo Salgado, em muitos membros da comunidade mas sobretudo dentro do Banco Espírito Santo. Os quadros falavam de Salgado como de um banqueiro predestinado, um líder de que se orgulhavam, um homem que estaria sempre acima dos desafios e dos seus pares. Foi assim pelo menos até novembro do ano passado, quando começou a guerra na família. Mas mesmo no princípio da fase mais aguda da crise, muitos quadros do banco recusavam-se a aceitar a informação que ia sendo divulgada, como se o grupo estivesse a ser alvo de conspirações.

De alguma maneira, a situação foi semelhante no BCP aquando da crise de Jardim Gonçalves: era venerado pelos seus quadros, a incredulidade foi semelhante. Acresce que, no caso de Ricardo Salgado, muitos se sentiram mais do que dececionados: sentiram-se traídos. Esse terá sido o caso de Amílcar Morais Pires e de outros altos quadros do BES: indefetíveis até ao fim, foram deixados cair.

Curiosamente, Salgado foi negociando com quem o traíra a ele. Como Pedro Queiroz Pereira, com quem acabou por fechar um negócio que separou os dois grupos familiares. Com Carlos Costa, que lhe foi tirando o tapete aos poucos. E com José Maria Ricciardi, o seu primo que liderou uma tentativa de "golpe de Estado" em novembro que falhou. Ricciardi falara então com diversos membros da família, isoladamente, para retirar a confiança a Salgado, mas quem acabou isolado foi ele próprio. Teria o desfecho sido diferente se Ricciardi tivesse conseguido afastar Salgado? 

Os últimos meses revelaram que, na geração em causa, a família Espírito Santo só tinha dois potenciais líderes, Salgado e Ricciardi, que são tão parecidos um com o outro como o sal é do açúcar. José Maria Ricciardi foi o único a estar frontalmente contra Salgado e o tempo mostrou que tinha razão. Mais: ele podia ter sido o líder que salvaria o grupo. Mas não teve apoio da família. E, sobretudo, nunca teve um plano alternativo a não ser propor-se a si próprio como líder. Teve uma oportunidade história, não esteve à altura dela.

Hoje, o resto da família já estará com ele. Ou, pelo menos, está contra Ricardo Salgado. Há uma revolta surda entre os vários membros da família dos demais ramos, sobretudo os que estiveram com ele até ao fim, mas já não estão. Hoje, há membros de uma nova geração a despontar, como André Amaral ou Caetano Barão da Veiga, mas não há muito por que lutar. Dos mais velhos, já mais nenhum se solidariza com Salgado. Lealdade não é o mesmo que fidelidade. 

O próximo poder

Voltemos à frase atribuída a Rothschild: os banqueiros sabem que o poder maior numa economia está em criar moeda, o que Portugal aliás já não pode fazer. Em Portugal, o poder maior reside no Estado, através da despesa pública e dos impostos, e nos bancos, pela concessão de crédito. Mesmo nos últimos anos, com menos crédito concedido, o poder dos bancos foi suficiente para decidir a vida ou a morte de muitas empresas, pela renovação ou não renovação de créditos e linhas de tesouraria. Fale com qualquer gestor de uma PME, ele explica. 

A queda da família no BES está consumada, mas essa não é a única alteração acionista em perspetiva. É hoje difícil perceber como ficará o poder no banco, que está tomado por muitos acionistas especulativos de curto prazo. Além disso, uma entrada do Estado, ainda que com títulos híbridos, significa uma diluição enorme dos acionistas, incluindo dos investidores que entraram no último aumento de capital e que podem acionar legalmente o banco. Mas é óbvio que o BES acabará comprado, porque acabará vendido, mesmo que seja aos poucos, em mercado. 

A queda do BES enquanto eixo de poder poderia ter o efeito reverso que teve a queda do BCP em 2007: abrir caminho para que outro banco assomasse. Contudo, nenhum dos bancos portugueses parece ter a força ou sequer a dinâmica para se catapultar neste momento, até porque o mercado português continua a ser um mau "negócio". Assumindo que não há vazios de poder - sempre que há rei morto, há rei posto -, quem, então, pode assumir as rédeas do poder?

A resposta depende menos dos acontecimentos e mais das circunstâncias (Vítor Gaspar vai gostar desta): é o credor estrangeiro. Às vezes chamam-lhe "mercados". O credor torna-se acionista à força e vira investidor. É a força mais poderosa que se abateu sobre a economia portuguesa desde 2010, precisamente por sermos devedores. É o credor estrangeiro que está a reconfigurar a economia portuguesa (e a sua política, que depois de perder as ferramentas cambial e monetária, perdeu agora na prática a liberdade orçamental). É ele que escolhe gestão profissional em vez de familiar, e que prefere sempre fluxos de caixa a qualquer outro tipo de retorno, que pode sempre pressionar o pagamento de dividendos em vez de reinvestimento. É isso que está a acontecer dramaticamente no BES. É isso que vai reconfigurar a economia portuguesa: uma mudança de fora para dentro.

O discurso dos centros de decisão nacional sempre foi essencialmente um discurso de poder, e de manutenção desse poder pelo regime vigente. Hoje é um anacronismo ridículo. O investidor estrangeiro já tomou conta. A EDP e a Ren são hoje chinesas, a Ana é francesa, o BCP, BIC, Zon e Optimus são angolanos, o BPI é hispano-angolano, o BES há de ser de quem o quiser, a Cimpor é brasileira, a PT quer sê-lo, a Galp é apátrida e há dezenas de grandes empresas à venda, incluindo hotéis, seguros, saúde e imobiliário do Grupo Espírito Santo, a TAP ou os resíduos do Estado.

O sistema mudou porque estava falido. O novo regime fala estrangeiro. Precisa de reguladores fortes, para que produza em vez de extrair riqueza de Portugal. Mas essa é a maior mudança a que assistimos. Não foi a troika que a trouxe, foi a dívida. O triste fim do Grupo Espírito Santo não é senão uma forma dramática e espetacular de o percebermos. Como diria José Sócrates, o mundo mudou.

Texto publicado na Revista do Expresso, a 19 de julho de 2014

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/a-queda-de-um-santo-por-pedro-santos-guerreiro=f882869#ixzz39c5vDDDO

terça-feira, 29 de julho de 2014

“Bilderberg: As minhas perguntas a Balsemão e a sua resposta”

Por Marisa Moura

“Ontem enviei perguntas, por e-mail, aFrancisco Pinto Balsemão, presidente do grupo Impresa (canais televisivos SIC, semanário Expresso, revistas Visão, Exame, Caras, etc.), fundador do Partido PPD – Popular Democrático (actual PSD – Partido Social Democrata), ex primeiro-ministro dePortugal, e um membro da comissão de direcção das reuniões Bilderberg, encabeçada pelo presidente do grupo financeiro dos seguros Axa e cujo chairman é o quase centenário David Rockefeller.

Copio abaixo o e-mail que enviei a Balsemão e a nota sobre a resposta que recebi:

Dr.  Balsemão,

Sou freelancer desde que saí do Grupo Impresa em 2010 e é nessa qualidade que lhe dirijo as questões que seguem abaixo, sobre a crise política do momento, o grupo Impresa e o clube de Bilderberg, às quais agradeço que responda logo que lhe seja possível, nas próximas semanas.

Antes, ainda uma obrigatória palavra sobre a minha saída do grupo Impresa. Demiti-me por razões que creio serem do seu conhecimento. Lamento ter saído por tais razões, lamento a forma como tive de sair e lamento ter-me visto obrigada a tornar pública a situação, bem como lamento a forma pela qual a tornei pública. Pauto-me exclusivamente pelos mais nobres valores de cidadania e ética profissional, pelo que a esses, e apenas esses, jurei lealdade. É sob esse mesmo compromisso que, por mais insólito que pareça, lhe dirijo hoje estas questões. Espero que compreenda e reaja em conformidade com essa compreensão enviando de volta respostas.

Com os meus sinceros cumprimentos e agradecimentos, aqui seguem então.

As questões:

1 – Duas semanas após a reunião do clube de Bilderberg de Junho, em que o Dr. Balsemão levouPaulo Portas (CDS-PP, no governo) e António José Seguro (PS), a revista Exame entrevistou Paulo Portas, que é a capa neste momento em banca. Duas semanas após a entrevista Paulo Portas demite-se do governo e desencadeia eleições antecipadas nas quais Portas e Seguro são precisamente os melhor posicionados para ganhar. Quando Durão Barroso esteve consigo na reunião de 2003 o governo, por outras razões, também mudou. A revista Exame não costuma fazer capa com políticos, mas recentemente já fez duas. Compreende-se que seja a nova linha editorial resultante da nova direcção, mas ambas as capas são com membros centristas do governo (Assunção Cristas, primeiro, Portas agora). Destes factos se infere que neste momento arevista Exame (grupo Impresa) está a fazer campanha por Paulo Portas para as legislativas.

A pergunta é: Que garantias dá aos leitores da Exame, e audiências dos demais órgãos do grupo Impresa, de que esta inferência estará incorrecta? Que garantias dá aos cidadãos portugueses de que os conteúdos que consomem, veiculados pelas revistas Exame e Visão, pelo jornal Expresso e pelos canais da SIC, cumprem estritamente os deveres constitucionais de Informar desta Democracia?

2 – Por que razão inscreve a sua “filiação” no clube de Bilderberg no seu curriculum quando grande parte dos membros nega integrá-lo? Recordo-me, por exemplo, que optou por inscrever essa filiação na pequena bio que o descrevia como orador numa das conferências anuais Portugal em Exame…

3 – Tal como a Maçonaria, o clube de Bilderberg é conotado com secretas conspirações maliciosas ao bem-estar das sociedades, ou no mínimo, poderosas redes de nepotismo. No caso da Maçonaria, em Portugal, têm surgido maçons, como António Arnaut e João Cravinho, a defenderem a transparência relativamente aos seus membros, nomeadamente aos que exerçam cargos públicos. Defende semelhante linha de transparência para o clube de Bilderberg?

4 – Que motivações o levaram a juntar-se ao clube de Bilderberg? Do contributo do Clube para a consolidação da Democracia em Portugal que decisão/decisões destacaria? Porquê?

Mais uma vez agradeço a atenção e compreensão.

Sinceros cumprimentos,

Marisa

http://ergoressunt.wordpress.com/2013/07/04/bilderberg-as-minhas-perguntas-a-balsemao-e-a-sua-resposta/

Miguel Sousa Tavares "Atacar Ricardo Salgado é uma espécie de desporto nacional"

Lamenta-se que só agora assuma, depois de toda agente saber, pelos outros, e não pelo próprio. Não tem necessariamente que o dizer,mas assim evidencia a sua parcialidade em temas que “não lhe dão jeito” ora a credibilidade constroi-se e assim só a destroi. Foi preciso MRS e JMT, referirem o assunto pela TV e pelos jornais, para que MST viesse a publico referir o assunto. Eu próprio já o tinha referido.

“Assumindo a relação que tem com a família Espírito Santo, ao ser casado com uma prima de Ricardo Salgado, Miguel Sousa Tavares salientou, no seu comentário semanal à antena da SIC, que a história construída em torno do ex-presidente do BES “tem duas versões” e que “até agora só vimos uma”.

“Não entendo como é que, no dia seguinte à detenção, todos os jornais coincidiram com as acusações. Dá ideia de que o sigilo só se aplica à parte que é acusada e não se aplica ao outro lado”, disse o escritor.

Optando por uma atitude de prudência e pouco crítica em relação ao banqueiro, o ex-jornalista lamentou: “atacar Ricardo Salgado é uma espécie de desporto nacional. Há mesmo disputas para ver quem o atacou mais cedo”.

sábado, 12 de julho de 2014

Ascenso y caída del Espirito Santo

 

el país

Se les conoce como los Rockefeller portugueses. Peleas entre primos y escándalos financieros del grupo de empresas han llevado a que el Banco de Portugal intervenga para que la familia salga de su propio banco

JAVIER MARTÍN Lisboa 12 JUL 2014 - 00:00 CEST

Hasta hace unas semanas le llamaban DDT, Dono Disto Tudo (posee todo). Ricardo Espírito Santo Salgado era el dueño de todo, el dueño de Portugal y más allá. Era la mano que movía los hilos de un negocio familiar con sucursales de Angola a Brasil y de Luxemburgo a Nueva York. Pero en cuestión de semanas, su banco ha perdido la mitad del valor, y su grupo de empresas, el 70%.
La imagen de confianza del Espírito Santo, publicitada por el futbolista Cristiano Ronaldo, ha caído por los suelos. Y él, Dono Disto Tudo, ha sido recriminado y despedido por el gobernador del Banco de Portugal debido a los escándalos financieros en los que está envuelto y para evitar que contagien al banco.
La expulsión de la familia no ha evitado el huracán que ha vivido la entidad esta semana; sus acciones fueron suspendidas en Bolsa y volvieron a cotizar después de que el supervisor precisara que la exposición de la entidad al Grupo Espírito Santo es de 1.180 millones, pero que gracias a los aumentos de capital, cuenta con un colchón financiero de 2.100 millones.
Ricardo no habla ni se deja ver en público. Al último banquero de la saga Espírito Santo se le conocen pocas apariciones multitudinarias, y menos entre la beautiful people. Huye de las playas de Comporta donde sestea lo más de Europa, entre ellos los Grimaldi. Si en algún momento no trabaja, prefiere instalarse en su exclusiva residencia brasileña de Xaí, en Bahía.
Allí las malas noticias llegan con sordina. Y ahora las hay y muchas... Escándalos fiscales, acusaciones de uso de información privilegiada en procesos de privatizaciones, hundimiento de la cotización del banco, deudas de miles de millones en el grupo. Cuando no es en Angola es en Luxemburgo, cuando no en Suiza o en Brasil. De repente, la rueda ha girado en sentido contrario y la contaminación del banco por culpa de la financiación a empresas del grupo ha derivado en una pesadilla. Y, como si la historia volviera a repetirse, esta semana el Partido Comunista Portugués ha pedido la nacionalización del Espírito Santo, que hoy vale casi la mitad que el pasado sábado.~
Salgado ha cumplido ya los 70 años, 22 de ellos los ha pasado al frente del banco. Con la excepción del fundador, es el que más tiempo ha permanecido en el banco en la historia de esta saga familiar que comenzó en 1869.
Las cinco grandes ramas de la familia le fueron otorgando su voto de confianza a lo largo de las últimas décadas puesto que los negocios eran boyantes en los cuatro continentes donde operaban. Salgado tenía el respaldo de los Mosqueira do Amaral, con el 15,57% de la sociedad familiar; de los Salgado, con el 17%; de José Manuel Espírito Santo, con el 18,53%; del comandante Antonio Ricciardi, con el 17,84%, y, por encima de todos, con el apoyo de Maria do Carmo, Ninita, Moniz Galvão, con el 19,37%, la única mujer en este grupo de poder financiero y empresarial.
Ninita es la mujer más rica de Portugal y odia la fama. Huye si ve un fotógrafo. No acude a fiestas. La única pasión que se le conoce es conducir automóviles de alta gama, preferentemente Alfa Romeo, y, por supuesto, acudir al consejo superior, el santasanctórum de las decisiones económicas de la familia.
Pero hace unos meses, ese grupo de poder familiar se partió en dos. El primo José María Ricciardi, al frente del BESI, banco de inversiones, osó disputarle el puesto a Salgado. José María recibió entonces la bofetada de su propio padre, Antonio Ricciardi, que votó en contra de las pretensiones de su hijo. A sus 94 años, el patriarca de esta rama de la familia sigue acudiendo al despacho.
Los dos primos, que crecieron en la misma calle, la que lleva su glorioso apellido en la ciudad costera de Cascais —que desemboca en la Boca del Inferno—; que jugaron en las mismas casas, con sus madres reunidas cada tarde para la partida de bridge, ni se hablan ni se sientan ya alrededor de la misma mesa. Todo porque Salgado ha sido destituido por el Banco de Portugal y porque Ricciardi no puede aspirar a nada. Los dos tienen prohibido tomar decisión alguna en el banco y en el grupo financiero de la familia.
Su rivalidad va más allá de los negocios. Ahora ya los primos no coinciden ni en las aficiones ni en el carácter. Salgado, siempre fiel a su perfil bajo; Ricciardi, más intempestivo. Salgado, más elegante; Riccardi, más esnob. Además, Salgado ni caza, ni juega al golf, ni le da al backgammon, y eso sí que es raro en la saga. “Tampoco fuma ni bebe. No tiene vicios”, dice un compañero de universidad. “Bueno”, añade, “sí tiene uno, el masaje, a poder ser diario”. También otro: el trabajo de sol a sol, el santo y seña de una dinastía creada a partir de un hijo bastardo.
El Espírito Santo se hizo carne en el cuerpo de un bebé sin padre ni madre conocidos que vino al mundo en una calle lisboeta. Corría 1850 y en la Rúa Fieles de Dios, con aquel niño al que pusieron el nombre de José María Espírito Santo Silva, se iniciaba la historia de una de las grandes familias financieras del mundo.
A los 19 años, Espírito Santo Silva abrió una casa de lotería, casi toda española, ya que tenía más premio y gozaba de más popularidad que la local. Loteros de Madrid, Badajoz, Pamplona y Galicia le daban un 3% de comisión, y él a los revendedores locales, un 2%. El riesgo era alto en una época de mucha picaresca y pocas comunicaciones, pero Espírito Santo se las apañaba solo: tardó 18 años en contratar un empleado. “Trabajo hasta las dos de la madrugada y me levanto a las cinco o a las seis de la mañana”, escribió en una carta recogida por el historiador Carlos Alberto Damas en el libro El Banco Espírito Santo, una dinastía financiera portuguesa. Cuando murió, a los 65 años, dejó cinco hijos; de ellos, tres varones que dirigieron el banco hasta 1973.
El 25 de abril de 1974, el golpe de Estado de los militares llevó a varios familiares del consejo de administración a la cárcel. El banco, la aseguradora, la celulosa, sus intereses petroleros y alimentarios pasaron a poder del Estado.
Mary, la hermana de Ricardo Salgado, el aún presidente del banco, recordó hace dos años a la publicación Sábado sus penurias: “A veces llegaba a fin de mes sin dinero, no tenía con qué alimentar a mis hijos y tuve que vender muebles y cuadros”. Quizá por ello, su hermano es un gran comprador de arte contemporáneo.
Los Rothschild, Rockefeller, Agnelli... la aristocracia del dinero mundial acogió a esta familia portuguesa, a la que ayudaron con créditos que facilitaron su recomposición económica. Las nacionalizaciones son “conquistas irreversibles de las clases trabajadoras”, aprobó el Parlamento portugués. Pero en 1989 se aprobó todo lo contrario. La familia recuperó el banco, regresaron del exilio y tres años después Ricardo se hizo con todo el grupo familiar.
Han pasado 22 años de aquello. Salgado ha dejado de bailar. Uno de últimos valses fue en la boda de su hija Catarina, en un palacio de Sintra, con más de 800 personas. El banquero casó a Catarina y logró el eslabón que faltaba. Su yerno, Philippe Amon, 21 años mayor que la novia, posee el Santo Grial de la economía: la empresa de tinta con la que se imprime todo el dinero del mundo.
En dos semanas, Salgado abandonará el banco por la puerta de atrás, acosado por todas partes y destituido por el gobernador del Banco de Portugal. Le quedará una pensión anual de 900.000 euros, una pequeñez para un hombre que recibía comisiones de 18,5 millones, según relatan Maria João Babo y Maria João Gago en el libro O último banqueiro, o sea, Ricardo, ex Dono Disto Tudo.
http://elpais.com/elpais/2014/07/11/gente/1405098189_949103.html

















sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Realidade

"Os pequenos factos inexplicados contêm sempre algo com que deitar abaixo todas as explicações dos grandes factos.

"Autor - Valéry , Paul

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A vergonha de Angola.

O "Jornal de Angola" (JA) é a vergonha daquele país. Sinceramente, se alguém pensar que Angola se resume ao seu jornal proto-oficial, ficará com uma ideia muito preocupante do que o país é hoje.
Segundo aquele diário, "as elites políticas portuguesas odeiam Angola e são a inveja em figura de gente". Aliás, o JA salienta que os tugas são pródigos em odiar quem os ajuda como Angela Merkel que - e cito, com a devida chamada de atenção aos nossos esquerdalhos pró-MPLA - "ajudou a salvar Portugal da bancarrota" (fim de citação) e os próprios angolanos que (atenção aos críticos de Jonet) fazem o favor de ajudar o este ceguinho que é o nosso país a - como se escreve no jornal - "sobreviver à miséria".
E muito mais acusa o JA: diz que o Expresso é o jornal do PSD; que Soares, além de Balsemão e Belmiro (curiosamente proprietários do Expresso, SIC e 'Público') amplificam "palavreado criminoso" contra Angola; ou que há um "ramo mafioso da maçonaria" que está sempre a torpedear a cooperação (a qual subitamente deixa de ser ajudar à nossa miséria).
Tudo isto, a propósito de uma notícia do Expresso, no passado sábado, que dava conta de um inquérito aberto na PGR a três altos dirigentes angolanos, um deles o vice-presidente daquele país e ex-presidente da Sonangol, Manuel Vicente. Este, em declarações ao mesmo Expresso, nega qualquer ato menos lícito e, com normalidade, diz esperar que tudo se esclareça. Mas não contou, seguramente, com a reação da vergonha de Angola e do seu editorialista de serviço (fontes bem informadas de Luanda, dizem que é um português ressabiado, mas não tenho a certeza). É que a normalidade de um país não se mede só pela existência de eleições. A histeria do editorial é um péssimo contributo para a imagem de modernidade que Angola pretende projetar no exterior.
Mais do que isso, faz suspeitar muito da apetência de certos setores angolanos pela Comunicação Social portuguesa. Será para prevenir que notícias destas não voltam a aparecer? Quero crer que não, mas se o editorialista continua nesse tom, é caso para ter sérias dúvidas. 
Twitter: @HenriquMonteiro https://twitter.com/HenriquMonteiro
Facebook:Henrique Monteiro http://www.facebook.com/hmonteir   
13 de novembro de 2012

A vergonha de Angola - Expresso.pt

A Alemanha anda a lixar o euro?

Domingos Amaral

 

Nas últimas semanas, a Alemanha tem sido muito criticada, seja pelos americanos, seja pelo FMI, seja até subtilmente pela Comissão Europeia.

A causa das críticas é simples: a Alemanha tem um enorme excedente comercial, exporta muito mais do que importa, e isso tem desequilibrado muito a situação na zona euro.

Os outros países, sobretudo os países do Sul, têm grandes déficits comerciais e de capitais com a Alemanha, e apesar de os estarem a tentar corrigir, com tremendos esforços e profundas recessões, o equilíbrio não volta, pois a Alemanha não faz nenhum esforço para corrigir o seu excedente.

A economia é assim, cada moeda tem sempre duas faces.

Se nós temos um déficit na balança comercial ou de transações correntes, alguém tem de ter um excedente. Para que este desequilíbrio se consiga corrigir, ambas as partes têm de alterar as suas políticas.

Contudo, os alemães não aceitam este princípio.

Eles acham que os déficits dos países do Sul existem porque eles são pouco produtivos, pouco competitivos, e consomem demais, importanto mais do que deviam.

Mas, acham que o seu excedente é virtuoso, sinónimo de competitividade alemã e de vitalidade económica, e não querem deixar de o ter.

Portanto, não querem saber nem de conselhos nem de críticas.

Não querem subir salários na Alemanha, não querem mais inflação, nem querem ter de importar mais.

Ou seja, querem continuar como são, porque se julgam melhores que os outros.

Porém, assim não há equilíbrio.

Por mais que os países do Sul tentem corrigir, gastando e importando menos, se a Alemanha não puxar pela sua economia, os países do Sul não conseguem exportar para lá, e por isso não conseguem crescer.

É pois, ou devia ser, evidente para todos que o euro não está a funcionar bem.

Não é possível aceitar que só a Alemanha ganhe com o euro, como tem ganho.

Foram 10 anos de grandes excedentes para a Alemanha, e grandes déficits para os países do Sul!

Para muitos países, começa a não fazer sentido estar numa união monetária em que só a Alemanha ganha, e quase todos os outros perdem.

Se os alemães não perceberem isto depressa, e continuarem cegos, o que é o mais provável porque eles se acham superiores a todos os outros, em breve será impossível sustentar um euro que provoca estes graves desequilíbrios.

Antes do euro, a única forma que os outros países tinham de impedir esta supremacia da Alemanha, era desvalorizarem as suas moedas.

Agora, não têm essa arma, e por isso estão reféns da Alemanha, que os despreza e humilha constantemente.

Ou isto muda depressa e a Europa se transforma nuns Estados Unidos da Europa, ou a coisa, mais cedo ou mais tarde, fica insustentável.

Que sentido faz termos uma moeda que nos prejudica e empobrece?

 


Ver artigo...

Constituição

Francisco Seixas da Costa

 

O presidente da Comissão europeia voltou ontem a alertar para as consequências que podem advir de uma eventual rejeição, pelo Tribunal constitucional português, de algumas normas do orçamento geral do Estado.

 

Não é nova esta posição do antigo líder do PSD. Interrogo-me, contudo, por que razão a Comissão europeia, a montante da apresentação do orçamento, não optou por recomendar ao executivo português que tivesse o maior cuidado em garantir que as propostas que viesse a fazer respeitassem, em absoluto, as normas da Constituição do país. É que, se acaso assim procedesse, não haveria o menor risco de um "chumbo" pelo tribunal.

 

Talvez também conviesse lembrar, à atenção de quem tenha a menor pretensão de vir a ser candidato à chefia do nosso Estado, que, se acaso fosse eleito, lhe competiria, no ato de posse, "defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República portuguesa".


Ver artigo...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ministro quer Constituição contra "Estado Social absorvente" | Económico

Ministro quer Constituição contra "Estado Social absorvente" | Económico

Táxis

Francisco Seixas da Costa

 

Há pequenas coisas que denotam a deterioração da autoridade do Estado.

 

Há uns anos, os táxis deixaram de ter as tradicionais cores verde-e-preto para passarem a uma cor amarela, tipo areia. À época, recordo-me de ter ouvido sólidos argumentos em favor da opção por essa nova cor. Agora, de há uns meses a esta parte, verifico que os táxis regressaram ao verde-e-preto. Imagino que haja outras luminárias a avançar especiosas razões favoráveis ao regresso às cores originais, seguramente contradizendo em absoluto as anteriores.

 

A minha questão é, porém, outra. Enquanto, na anterior versão verde-e-preto as cores eram únicas, agora o verde usado nos táxis parece ter sido deixado "à vontade do freguês". Hoje, durante alguns minutos no aeroporto, dei-me conta de, pelo menos, seis tons de verde utilizado. Alguns deles são, de forma propositada, tão escuros que quase se aproximam da cor preta. Outros vão desde evidentes espécies de azul ao verde claro "saloio", passando verde "elegante" (do Sporting, claro).

 

A minha pergunta é simples: é normal esta variedade ou trata-se de uma padronização falhada? Ou será que o Estado tem medo aos taxistas? Ou isto já é produto da doutrina liberal "in the making"?


Ver artigo...

sábado, 25 de maio de 2013

Banif processa ex-diretores no Brasil

A notícia aparece, a reboque do escândalo. As autoridades, ministros, etc., o que andam a fazer? Se não tivesse sido publicada a noticia do escândalo daquela Sr.ª., receber quase um milhão, o BANIF deixava passar, pois outros mais receberam ou receberiam. Os portugueses pagam, ai pagam, pagam…

Há uma semana:

O Banif está de saída do mercado brasileiro, onde tem uma operação muito pequena. Isto não impediu a atribuição de um prémio de gestão de 533,7 mil euros à administradora do Banif Banco de Investimento Brasil, a que se junta um salário de ¤448,6 mil. Conceição Leal recebeu o triplo do que ganhou o presidente do banco Jorge Tomé, e foi o gestor bancário mais bem pago em Portugal. Em 2012, o Estado passou a deter 99,2% do banco. Ler mais: http://expresso.sapo.pt/banif-paga-premio-milionario-a-gestora=f807678#ixzz2UIYiiGIb

“Banco Internacional do Funchal moveu uma ação judicial contra os ex-diretores da sua subsidiária Banif Brasil por haver "indícios de irregularidades" no "desaparecimento" de 171 milhões de euros.
O Banco Internacional do Funchal (Banif) abriu uma ação de responsabilidade civil contra os ex-diretores da sua subsidiária Banif Brasil, depois de ter registado imparidades de 171 milhões de euros resultantes de "indícios de irregularidades", revelou hoje o banco.

"A administração do Grupo Banif ao iniciar funções em março de 2012 diagnosticou, no Banco Comercial Brasil [a sua subsidiária brasileira], uma situação económica financeira frágil e indícios de irregularidades", lê-se no comunicado enviado hoje à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Conforme relata o banco liderado por Jorge Tomé, na altura, foi nomeada "uma nova diretoria executiva, que estabilizou a situação do banco, regularizou operações, procedeu ao levantamento detalhado das anteriores práticas de gestão, condições e registo das operações passadas, tendo também determinado a concomitante realização de auditorias e providências interruptivas da prescrição de responsabilidades".

Na sequência destas regularizações e auditorias, "foi necessário proceder ao registo de 92 milhões de euros de imparidades nas contas consolidadas do grupo em 2012 e, já no primeiro trimestre de 2013, de mais 79 milhões de euros", informou o Banif.

"Uma vez concretizada a estabilização da instituição financeira, a assembleia geral deliberou, nesta data, sob proposta do conselho de administração, a instauração de ações civis contra os ex-diretores, que terá lugar a par da participação dos factos às autoridades e de outras medidas de defesa dos interesses do Banif", realçou a instituição.”

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/banif-processa-ex-diretores-no-brasil=f809499#ixzz2UIY6Tw17

sexta-feira, 19 de abril de 2013

terça-feira, 26 de março de 2013

O modo do tempo.

Os dias são unidades cronológicas de 24 horas. Uma semana 7 dias. Um mês, 28, 29, 30 ou 31 uma vezes 24 horas.  

Mas há uma enorme diferença nas horas entre si.

A manhã de Segunda feira é diferente da noite de Sexta-feira. Um dia pequeno de Dezembro é diferente de um dia grande de Agosto.

O mesmo se passa com os anos.

A infância tem um único ano a fazê-la vibrar. Talvez também seja assim na juventude. Mas os anos na velhice distinguem-se. Cada ano contado como o último. Quando o fim se aproxima descobre-se que cada dia é uma personagem diferente:- um hóspede que parte ao romper da aurora e convive na insónia da noite. Talvez a vida seja um único dia desses: que desaparece quando cumprimos a agenda e regressa vazio no fundo da noite.

Há, sem dúvida, dias que são diferentes. Dias há que são todos iguais uns aos outros.

Há assim uma identidade cronológica do tempo de um dia que não é a quantidade igual das horas.

Em que consiste esta diferença? Como passam os dias e as suas horas? Qual é a sua forma?

Como é que têm tantos conteúdos diferentes como há pessoas no mundo?

Como partilhamos todos nós o mesmo dia, quando num mesmo instante podemos estar a viver conteúdos completamente diferentes?

E faz-se tempo quando um dia se junta a outro, para fazer o dia-a-dia? Não terá cada mês os seus dias e semanas diferentes dos dias e semanas dos outros meses? Não são as segundas feiras do mês de Setembro diferentes das de Outubro, Novembro e Dezembro, etc.? Porque têm o mesmo nome, quando passam para regressar na semana seguinte?

Para onde vai uma Segunda feira depois de ter passado, quando já é Terça-feira? Será a Segunda feira da primeira semana de um mês igual à da última semana do mês do ano?

Não será por outro lado verdade que um mês está já a dar o tom ao modo como são passados os seu dias? Não é um facto também que os dias dos meses são diferentes de meses para meses porque os meses são diferentes de ano para ano? Não é verdade que os anos são diferentes consoante as épocas das vidas?

E as épocas das vidas com os seus inícios e os seus fins não são diferentes de vidas para vidas? E se o tempo da vida não resultasse de juntar um segundo a cada novo segundo até perfazer um minuto?

E se o tempo da vida inteiro não resultasse de juntar 60 minutos numa hora, 24 horas num dia, 7 dias numa semana, quatro semanas num mês e 12 meses num ano, ou os anos todos das nossas vidas no tempo da vida? E se o tempo todo da vida vibrasse já- mesmo sem ter sido esgotado ou vivido até ao seu limite extremo- de modo comprimido e compacto num segundo?

E se o tempo todo da vida estivesse maciça e densamente compactado no primeiro segundo de vida tal como no último? Todos os momentos em que se percorre o caminho encontram-se entre o primeiro instante e o derradeiro. Todos são princípio e ao mesmo tempo fim. Todos duram mesmo que um instante.

A vida começa ao fim-de-semana ou nas férias, porque a vida começa nas vésperas de tudo.

Acaba também de véspera. Talvez, não ainda. Expresso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Narrativas ou narrotretas?

É curioso como, nestes dias de caos, se fala tanto de narrativas. A palavra foi invadindo progressivamente o espaço público e agora toda a gente - jornalistas, políticos, comentadores - fala de narrativas, como se de uma palavra mágica se tratasse. É a narrativa do ministro Relvas, que escandaliza e indigna todo o País. É a narrativa ultraliberal do Governo, que falha em toda a linha. É a narrativa da crise, que suscita controvérsia no Partido Socialista. É a narrativa europeia, em que cada vez menos europeus acreditam. Etc. A razão desta proliferação é simples: a narrativa surge onde a ideologia desapareceu e, sobretudo, onde e quando o vazio ameaça a política. Ela resulta fundamentalmente de dois fenómenos: da erosão das ideologias, por um lado, e da formatação da realidade pelos media por outro lado. As ideologias, em vez de serem laboratórios experimentais de ideias, transformaram-se em corpus mais ou menos dogmáticos de estereótipos, que dão sempre as mesmas respostas a todos os problemas: para elas, as respostas vêm sempre antes dos problemas. E quando se tem as respostas antes dos problemas, as ideologias deixam de ser um espaço animado por ideias e valores, por factos e argumentos, por explicações e controvérsias. E os partidos que as adotam esquecem tanto os seus compromissos e programas, como temem os respetivos balanços e inventários. É disto que hoje se trata quando se denuncia e lamenta a degradação da política e o descrédito dos seus protagonistas. A formatação da realidade pelos media, por sua vez, encontrou no recurso às narrativas e à suas historietas o melhor modo de simplificar e intensificar as mensagens que produz e transmite, iludindo toda a complexidade dos factos e qualquer efetiva compreensão do mundo. Seja nos noticiários, que adotaram a forma de um esforçado "infotenimento" e são cada vez mais feitos de sequências breves, de imagens fortes, de ligações arbitrárias e de linguagens frustres, num caldo narrativo que já só ocasionalmente consegue respeitar uma qualquer lógica informativa. Seja no espaço de comentário, onde a multiplicação e a polarização encenada das narrativas substitui quase completamente - as exceções existem, mas são realmente poucas! - os factos, a sua explicação e discussão, instaurando assim um universo bizarro, que parece empapado em lérias, larachas e lamúrias. (E também por uma cada vez mais grotesca alacridade, mas isso fica para outra altura.) Muitas vezes, ao ouvi-los, apetece perguntar se os protagonistas desses programas falam mesmo... ou se, simplesmente, são falados, como se fossem marionetas, ou melhor, ventríloquos das narrativas que circulam por aí. O recurso à narrativa representa, pois, mais um passo, e grande, na submissão da política ao marketing. É outro fenómeno que veio dos EUA, sobretudo desde que nos anos Clinton o storytelling se tornou, pela mão dos famosos spin doctors, um auxiliar permanente da governação. O storytelling tinha, de resto, uma forte tradição nos EUA, que vinha dos tempos da escravatura e da segregação racial e que passou pelos muitos clubes de "contar histórias" que se multiplicaram no Mississípi, em Chicago, em Nova Orleães, no Alabama, no Missuri, etc. Foi essa tradição que acabou por inspirar o aconselhamento político na segunda metade do século passado, com P. Salinger junto de John Kennedy, J. Valenti junto de Lyndon Johnson, W. Safire junto de Richard Nixon ou de P. Cadell junto de Jimmy Carter. Antes de, com Ronald Reagan, chegar à Casa Branca um exímio contador de histórias.  Mais tarde, com Bill Clinton, o storytelling seria mesmo visto - é ele quem o diz, nas suas Memórias - como algo novo e decisivo na política contemporânea, como um artifício que permite enquadrar as aspirações das pessoas num horizonte menos ideológico e mais ficcional, dando-lhes "a possibilidade de assim melhorarem a sua própria história". A esta luz, compreende-se melhor de onde vem o sucesso do slogan "Yes, we can", simultaneamente o mais integrador e o mais vazio slogan da história da política contemporânea. Mas a inflação da palavra narrativa - que traduz o storytelling americano - no domínio político tem ainda outra razão. Ela encontra-se no desamparo dos cidadãos perante um mundo que ninguém parece já verdadeiramente compreender nem dominar. As narrativas aparecem então como historietas de oportuno consolo, capazes de propiciar alguma leitura do mundo e dos seus acontecimentos. Como formas simples e acessíveis de representar o incompreensível e de iludir a questão central, que continua a ser a do poder: afinal, quem manda nisto? Mas é precisamente perante as questões decisivas, como esta, que as narrativas revelam toda a sua fragilidade e insuficiência. Elas vivem entre a facilidade da treta e a tentação da burla, de que recentemente tivemos um estridente exemplo. Elas embalam mas não esclarecem, elas insinuam mas não explicam, elas consolam mas não mobilizam. É por isso que elas não respondem ao vazio político que tem alastrado com a crise dos últimos anos - pelo contrário, amplificam-no. Essa resposta continua à espera de ideias, de protagonistas, de símbolos e de valores magnetizadores, que convirjam na construção de uma nova visão do futuro. Porque, como um dia escreveu K. Pomian, na verdade a nossa civilização depende tanto do impulso do futuro como um avião depende do combustível que o alimenta. É aqui que está o problema.

MANUEL MARIA CARRILHO

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Economia brasileira está se tornando um 'enigma', diz 'Financial Times'.

A economia brasileira está se tornando um "enigma" por causa do nível de emprego recorde e do forte consumo interno combinado com baixo investimento, atividade industrial em queda e inflação em alta, segundo reportagem publicada nesta sexta-feira pelo diário econômico britânico Financial Times. A inflação de janeiro, divulgada na quinta-feira pelo IBGE, teve a mais alta taxa mensal em oito anos. O índice IPCA de janeiro foi de 0,86%, representando um índice anualizado de 6,15%. O jornal observa que a inflação já está acima do centro da meta do Banco Central por mais de dois anos. Para o Financial Times, isso "aumenta os temores de que a maior economia da América Latina esteja escorregando na direção da estagflação (inflação em alta combinada com recessão). 

'Velho inimigo'

O jornal comenta que o retorno da inflação, um "velho inimigo do Brasil", ocorre num momento em que o país vem lutando para reativar a economia e recuperar o brilho relacionado com os grandes mercados emergentes. "A economia brasileira está se tornando um enigma caracterizado por um recorde de baixo desemprego e forte consumo doméstico contrabalanceados por um investimento e por atividade industrial fracos e pela inflação em alta e entrincheirada", diz o jornal. O artigo comenta que as autoridades já vêm agindo para tentar reativar a economia, com os juros no nível mais baixo da história, incentivos à indústria e ao consumo, cortes de impostos e a redução dos preços de eletricidade. Apesar disso, observa o jornal, os analistas acreditam que os problemas brasileiros são relacionados principalmente à queda no investimento por conta da baixa confiança das indústrias. BBC

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

5ª carta aberta aos associados do Montepio Geral

por Eugénio Rosa [*]

A PRÓXIMA SESSÃO DA ASSEMBLEIA GERAL DO MONTEPIO REALIZA-SE NO DIA 15/10/2012 NO COLISEU DOS RECREIOS EM LISBOA PELAS 21 HORAS.
NÃO FALTES PORQUE NESTA ASSEMBLEIA VAI SER VOTADO O PROJETO DOS ESTATUTOS DEFENDIDO PELO PRESIDENTE QUE TIRA PODER DOS ASSOCIADOS

As chefias do Montepio e os seus amigos, convocadas pelo seu presidente, apareceram maciçamente na assembleia de 3 de Outubro. O número de participantes ultrapassou 1.400. Apesar de ter sido denunciado na assembleia a utilização dos meios de transporte pagos pelo Montepio em beneficio dos apoiantes do presidente, mesmo assim não houve qualquer esclarecimento por parte dos atuais corpos gerentes do Montepio. Continuou-se a verificar o silenciamento total nos órgãos de informação do Montepio – Revista Montepio, Newsletter do Montepio – de qualquer informação aos associados sobre a data da realização da assembleia e sobre o projeto de Estatutos em discussão. Tal silenciamento parece ser intencional, com o objetivo de evitar a participação de grande número dos associados na assembleia para assim ser mais fácil a aprovação do projeto por parte da hierarquia e dos seus apoiantes. Confrontado com tal situação por vários associados, o presidente da mesa da assembleia geral, padre Vítor Melícias, só soube dizer que isso não era da sua responsabilidade. Durante a assembleia assistiu-se a uma insólita contagem dos votos. O presidente pediu que os associados que votassem NÃO se levantassem. Pessoas contratadas pelo Montepio fizeram a contagem dos associados que se levantaram. O número dos que votaram a favor não foi obtido por contagem, mas sim pela diferença entre o total obtido pela informática, tendo como base as entradas registadas, e número de votos resultante da contagem dos associados que se levantaram. Não se apurou se todos os associados que se registaram, aquando da entrada, estavam ou não na sala. Este forma de contar os votos a favor (apuramento através da diferença, e não pela contagem direta) provocou forte reação por parte de muitos associados, até porque é irregular. No entanto, o presidente da mesa da assembleia persistiu com tal pratica insólita. A parcialidade do presidente da mesa da assembleia geral tornou cada vez mais difícil o ambiente da assembleia. A culminar tudo isto assistiu-se no fim a um acontecimento também insólito. O presidente da mesa da assembleia pretendeu prolongar a assembleia com base num requerimento que afirmou ter entrado no inicio mas que não deu conhecimento nessa altura à assembleia. Face à a forte reação que tal atitude provocou retirou o requerimento dando por terminada a sessão.
Tudo isto – ausência de informação a todos os associados da realização da assembleia e do projeto de Estatutos através dos órgãos de informação próprios que o Montepio possui; contagem de votos a favor por diferença; condução da assembleia que gera em muitos associados o sentimento de que existe parcialidade; etc. - ilustra e prova de uma forma clara o ambiente de falta de transparência e a ausência de respeito pelos princípios do mutualismo que se vive atualmente no Montepio. Esperemos que na próxima assembleia não se impeça o debate profundo das alterações aos Estatutos através do expediente de requerimentos para silenciar as vozes criticas ao projeto.
É urgente alterar este ambiente, até porque ele não se limita apenas à assembleia geral. Também domina o conselho geral do Montepio, constituído por 23 membros, cuja maioria é submissa ao presidente. No dia 10 de Outubro realizou-se uma reunião do conselho geral do Montepio para analisar as contas da Associação Mutualista, da Caixa Económica, que é o banco do grupo Montepio, e das restantes empresas referentes ao 1º semestre de 2012.
O conselho de administração distribuiu previamente para essa reunião um resumo com informação - Desempenho do grupo no 1º semestre de 2012 - sobre a situação da associação mutualista e das várias empresas do grupo (durante a reunião apercebi-me que tinha sido distribuído aos restantes membros do conselho um relatório muito mais completo que não recebi). Com base na pouca informação que tinha recebido coloquei um conjunto de questões sobre a situação das empresas e a sua gestão, pedindo esclarecimentos. E fui confrontado com a insólita atitude do presidente de ignorar e não responder às perguntas que fiz. E foi só quando o confrontei com a falta de respeito que significava tal atitude é que, atabalhoadamente, respondeu embora de uma forma insatisfatória.
Para que os associados possam ficar com uma ideia mais clara do que acarreta a falta do controlo da atividade do conselho de administração por um órgão com poderes efetivos e que seja totalmente independente e não submisso ao conselho de administração, e avaliar o ambiente que se vive no conselho geral do Montepio e também a situação das empresas do grupo Montepio, penso que é importante dar a conhecer as questões que coloquei na reunião do último conselho geral do Montepio.
A primeira questão referiu-se à qualidade da informação disponibilizada pelo conselho de administração. Na pág, 15 do resumo fornecido aparece um gráfico onde consta que o crédito concedido aos clientes corresponde a 77,6% do ativo da Caixa Económica, cujo valor é 20.967 milhões €, o que dá 16.270 milhões € em Junho de 2012; mas na página seguinte (16) do resumo já se afirma que, na mesma altura, o credito concedido aos clientes atingia 16.960 milhões € na mesma data, ou seja, mais 690 milhões €. Naturalmente procurei ser esclarecido sobre esta diferença o que provocou a reação do presidente do conselho de administração já referida.
A segunda questão dizia respeito à gestão do conselho de administração e aos resultados obtidos pelas empresas do grupo Montepio. A empresa mais importante é a Caixa Económica. Os seus resultados foram apenas 4,8 milhões € no 1º semestre (taxa de rentabilidade =1,4%) tendo sido afetados negativamente, não só pela situação do país, mas também pela compra do Finibanco, a que nos opusemos, como consta de uma nota pública do próprio conselho de administração e também, a nosso ver, por outros erros de gestão cujas consequências são mais visíveis agora.
Para concluir basta ter presente o seguinte. Um dos problemas graves que enfrentam as instituições financeiras neste momento é o aumento rápido do incumprimento devido à recessão económica provocada pelas medidas de austeridade. Em Junho de 2012, o crédito concedido pelo Montepio atingia 16.960 milhões €, sendo 8153 milhões € (48,1% do total) credito à habitação, atingindo o credito ao consumo 702 milhões€, e sendo os restantes 8.105 milhões € (47,8%) crédito às empresas. As imparidade de credito já atingiam 765 milhões € e, entre Junho de 2011 e Junho de 2012, a taxa de incumprimento no crédito à habitação diminuiu no Montepio de 2,9% para 1,78%, enquanto a taxa de incumprimento no credito às empresas aumentou de 4,76% para 7,85% (+64,9%). Mas a situação grave revela-se quando se analisa o crédito às empresas por setores. E isso porque o crédito às empresas de construção e imobiliário representa, no Montepio, 49,3% do credito total concedido às empresas, enquanto no setor bancário é apenas de 33,7%. Parece que a gestão do Montepio apostava na especulação imobiliária. E agora os maiores rácios de incumprimento são precisamente nas empresas de construção cuja taxa aumentou, entre Junho de 2011 e Junho de 2012, de 6,18% para 11,13% (+63,4%), e nas de atividades imobiliárias que subiu, no mesmo período, de 3,52% para 7,07% (+99,4%). Confrontados por mim com estes dados, o presidente, começou por ignorar a questão, mas quando novamente confrontado respondeu que era uma herança do passado, embora ele já esteja no conselho de administração do Montepio há 9 anos. É evidente que tudo isto tem consequências negativas para todos os associados, já que reduz significativamente os resultados da Caixa Económica, que são transferidos para a Associação Mutualista para serem aplicados em beneficio dos associados, nomeadamente daqueles que colocaram as suas poupanças nela. Se juntarmos os resultados negativos de algumas empresas do grupo Montepio (a Lusitania não vida continua a apresentar prejuízos – 5,6 milhões € no 1º semestre de 2012 - desde que adquiriu a companhia de seguros Real que pertencia ao grupo BPN) os erros tornam-se ainda mais claros.
Tudo isto, a meu ver, resulta também da ausência de qualquer controlo efetivo dos atos do conselho de administração pelos associados através de um órgão efetivamente independente do conselho de administração. E é precisamente esta a questão mais importante que está neste altura em debate na assembleia com o projeto de alteração dos Estatutos, defendido pelo presidente, que agrava ainda mais a falta de controlo dos atos do conselho de administração. E isto porque o projeto pretende transformar o atual conselho geral do Montepio, cuja maioria de membros é submissa ao presidente do conselho de administração, em assembleia geral da Caixa Económica, passando para ela praticamente a totalidade dos poderes que atualmente pertencem à assembleia geral de todos os associados. E é esta miniassembleia geral, dominada pelo conselho de administração (os membros do conselho de administração são, por inerência, também membros da miniassembleia), que depois elege um conselho de administração para a Caixa Económica, que é proposto pelo conselho de administração do Montepio, podendo um elemento deste ser membro da administração da Caixa Económica e, neste caso, é seu presidente. Para além disso é criado um conselho geral e de supervisão cuja maioria dos membros são os membros do conselho de administração do Montepio, que vai supervisionar os administradores da caixa Económica, que são pessoas escolhidas e da confiança do conselho de administração do Montepio. Portanto, não existe qualquer segregação real de funções entre os órgãos que são controlados e os órgãos que controlam, já que pertencem a estes os membros dos órgãos que devem ser controlados. Por outras palavras, quem controla, controla a si próprio ou controla pessoas da sua total confiança pois foram eles que as escolheram. Portanto, se a projeto de Estatutos defendido pelo presidente for aprovado, a ausência de controlo efetivo do conselho de administração por um órgão efetivamente independente continuará a não existir, agravando-se ainda mais a situação, o que poderá ter consequências graves no futuro para os associados, nomeadamente para aqueles que têm poupanças e depósitos no grupo Montepio. É para dar segurança aos associados, e defender a boa imagem do Montepio que lutamos. Mas isto só será terá êxito se tivermos o apoio ativo de muitos associados. Por isso, pedimos que divulgues esta informação e que não deixes de estar presente e participar ativamente na próxima assembleia de 15/10/2012. Se quiseres receber uma informação independente envia uma mensagem para edr2@netcabo.pt para pertenceres à lista de endereços.

MAIS MUTUALISMO, MAIS TRANSPARÊNCIA, MAIOR SEGURANÇA PARA OS ASSOCIADOS, E
MELHOR GESTÃO DAS SUAS POUPANÇAS E DEPÓSITOS: eis o nosso objetivo.

[*] Membro do Conselho Geral do Montepio, edr2@netcabo.pt
Esta carta aberta encontra-se em http://resistir.info/ .