sexta-feira, 4 de abril de 2014

Que circulem estas fotos...

Que circulem estas fotos...
O QUE EU DESTACO DAS FOTOGRAFIAS, É O SEMBLANTE DE RESPONSABILIDADE DE CADA DEPUTADO EUROPEU QUE PROCURA, NAQUELE PARLAMENTO, PÔR EM PRÁTICA TODOS OS SONHOS DAS SUAS CANDIDATURAS.
POR ISSO É IMPORTANTE VOTARMOS, A VER SE, COM A NOSSA QUOTA-PARTE, AJUDAMOS AQUELE ESCOL DA POLÍTICA EUROPEIA, A TRANSFORMAR A EUROPA NUM LUGAR APRAZÍVEL, ONDE TODOS POSSAM DORMIR DESCANSADAMENTE.
Verdadeiramente vergonhoso...
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Parlamento europeu em sessão.
Que circulem estas fotos... uma e outra vez... e outra.... sempre
sem parar para que todos saibam.

PRODUTIVIDADE NO PARLAMENTO EUROPEU.....
RECEBEM 12.000 EUROS AO MÊS!

European MPs at work in Brussels

Muitos deputados a dormir!...
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E NÓS TRABALHANDO COMO BURROS!...
 
 
 
 


 
 
 

Pois...

Cartoons - Tugas
 

NÃO HÁ FAMÍLIAS PERFEITAS, Marta Gautier

Juro ter os meus filhos penteados, limpos, bem vestidos, unhas cortadas, vacinas a tempo. Juro brincar com eles, ser uma mãe divertida, não andar em cima deles, ter vida própria. Juro garantir que aprendem e fazem os trabalhos de casa. Juro esclarecer dúvidas, nunca ir buscá-los depois das seis, dar recados na escola, receber recados da escola, fazer os poemas que a escola pede, fazer os fatos de Carnaval biodegradáveis que a escola pede, mandar dinheiro para o planetário, falar com os professores, falar com as educadoras, festejar aniversários no dia com bolos sem creme (como a escola pede), festejar outro aniversário, noutro dia animado e divertido, com convites, balões à entrada, chapelinhos, bolos com Smarties. Juro comprar presentes para colegas aniversariantes, levá-los às festas, esperar duas horas na rua, voltar a buscá-los. Juro saber lidar com as birras, controlar as birras, inscrevê-los num desporto, acompanhá-los ao desporto, ter um cartão para o desporto, vesti-los para o desporto, ver o desporto, tomar conta do bebé durante o desporto, bater palmas ao desporto, pagar o desporto. Juro escrever cartas ao Pai Natal, escrevê-las com canetas coloridas, estrelinhas à volta, mascarar-me de Pai Natal, deixar bolachinhas para alimentar o Pai Natal, de manhã limpar as migalhas deixadas pelo Pai Natal. Juro dar banho todos os dias, pôr creme todos os dias, mudar camas encharcadas, esfregar colchões encharcados, deixá-los ao sol, não gritar com crianças que encharcam camas, acordar às sete da manhã aos Domingos, ter antiderrapante na banheira, lavar dentes, ensinar a lavar dentes, cortar bifes, ensinar a cortar bifes, tirar cotovelos de cima da mesa, atar sapatos, ensinar a atar sapatos, tirar cebola do arroz, ter babetes impermeáveis, ler histórias, fazer vozes, ensinar músicas, ♪ põe o ovo lá no buraquinho ♪, explicar as instruções dos jogos, ir aos baloiços, empurrar os baloiços, ensinar a não ter medo dos baloiços, ♪ raspam, raspam, raspam ♪. Juro comprar trotinetas, bicicletas com rodas, bicicletas sem rodas, ténis com rodinhas, skates, lanternas, Cds do Panda, Barbies executivas, calças rotas. Juro dar semanadas, ensinar a gerir, ser justa, transmitir valores, valorizá-los, promover bons sentimentos, alimentar a criatividade, fazer aerossóis, e mais aerossóis, outra vez aerossol, ter Ventilan, conseguir atestado médico para voltarem à escola, evitar o excesso de televisão e chocolates. Juro não gritar, não lhes bater, não perder a cabeça, ir a sítios giros, estar atenta às companhias, fazer uma alimentação variada, cozer legumes, ensiná-los a gostar de legumes, verificar se puxam o autoclismo, ensinar a limpar o rabo, verificar se o rabo está limpo, ensinar a limpar o pingo, a pôr a tampa para baixo, a assoar. Juro pôr casacos quentes, gorros, limpar ouvidos, ter os brinquedos arrumados, ter os brinquedos por caixas, ter as caixas por temas, ter os temas actualizados, fazê-los cumprimentar as pessoas, garantir que não gritam, que fazem amigos, pô-los no penico, com amor.
 Juro fazer bem o meu trabalho, evoluir profissionalmente, ser humilde, almoçar com colegas, rir com colegas, ter espírito de equipa, ser útil, prestável, ter presença, ter uma presença agradável.
 Juro ter a casa arrumada a cheirar a limpo, aquecida, moderna, com design, velas de cheiro, centro de mesa, plantas, regar as plantas, ter quadros na parede, ter os quadros direitos na parede. Juro amar a minha casa, aproveitar a minha casa, ter gosto em cozinhar, surpreender, ter pão fresco, regar as plantas. Juro convidar amigos, saber receber, fazer tudo numa hora, quase sem se reparar, aperitivos, Ervas da Província, chão limpo, cantos limpos, sumos, sobremesas, chocolate quente para pôr em cima, cozinha impecável, abrir o vinho uma hora antes, Nespresso. Juro ser leve, despachada, não fazer dramas. Juro ter o frigorífico arrumado, sal e abrilhantador, fruta, iogurtes com pedaços, nunca deixar faltar leite, detergente, maçãs. Juro ter uma boa pessoa lá a trabalhar, que trate bem as crianças, que as lave atrás das orelhas, que passe a ferro num ápice, mal paga, um bom negócio.
 Juro ser sexy, gira, estar gira, vestir-me bem, ter um rabo brasileiro, fazer sexo, comprar algemas. Juro ser companheira do meu marido, ser jovem para o meu marido, ser fresca para o meu marido, seduzir o meu marido, pôr batom para o meu marido, estar sempre pronta, botas leopardo, ter aperitivos para o meu marido, ignorar os seus gritos com os miúdos, ver o canal de notícias. Juro dançar, pintar as unhas, ter charme, ser fiel, ter o cabelo sedoso, pele brilhante, dentes brancos, comer saladas, beber água, fumar pouco, só para o estilo, conhecer a forma mais moderna de fazer um rabo-de-cavalo, pôr creme nos cotovelos, ter soutiens sem alças, soutiens com as alças juntas para certos tops, soutiens com alças giras quando é para se verem, calças brancas que não sejam transparentes, camisas transparentes que não sejam ordinárias, saias ordinárias que só pareçam modernas. Juro controlar o humor antes da menstruação, ter classe, viajar, ser uma boa companhia, visitar os meus avós, aprender com eles, levar-lhes os bisnetos, jantar nos meus pais, não me importar que dêem sombrinhas de chocolate ao netos, não me importar que os deixem jantar de prato no colo. Juro ter tempo, não me queixar, ser divertida, boa amiga, conciliadora, ouvir desabafos, desabafar, chorar só quando é preciso. Juro não ser parvinha, embirrenta, ciumenta, mole. Juro ser feliz, ter graça, inovar, sair com amigos, ler, ser culta, esperta, rápida, solidária, bem-disposta, optimista, interessante.
 Juro solenemente.

 NÃO HÁ FAMÍLIAS PERFEITAS, Marta Gautier

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Centro de saude do UCSP - Santo António - Laranjeiro - Almada - Setubal

O posto que serve aminha área de residência é o do Laranjeiro que fica
situado no Feijó, mas como as freguesias foram unificadas, é como fosse
uma só.
Os utentes neste posto são agora 30854 utentes inscritos. Anteriormente o
Laranjeiro tinha um posto, com cerca de 20.000 e o Feijó outro com os
restantes 11.000 utentes, numeros redondos é evidente.
Com esta fusão de freguesias foi edificado um edificio novo, mais moderno e,
maior pelo que supostamente estariamos mais bem servidos,
pois as sinergias trariam vantagens para os cidadãos. Mas aqui é que está o
busilis, pois piorou e bem o serviço. Reconheço que não conhecia
bem o do posto do Feijó, e menos mal o do Laranjeiro.
Sem mais delongas mostremos os numeros que os próprios funcionários tem
exposto nas paredes do posto para conheciemnto do publico.
Assim: 16.576 utentes sem médico de família, 5.536 utentes com médico de
família, 4.631 utentes tem o seu médico de família, ausente por doença.
Este assunto, segundo o papel exposto, é do conhecioemnto da delegação do
Seixal, pelo que se pode inferir das preocupações com os utentes por
parte destes Srs.
Hoje precisei de lá ir com um familiar. Numa consulta marcada para as
12:30h, fomos atendidos pelas 14:00h. Uma médica estrangeira, pelo
sotaque, que rapidamente nso "despachou" o que entendo pois não devia ainda
ter almoçado e ainda lá ficaram mais utentes em espera. É normal
dizem os funcionários e outros utentes...

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ASSUSTADOR?

"A fome de uns é a fome de todos"

«Passei o mês de Agosto a ir ao hospital todos os dias. E em cada um desses dias veio um enfermeiro ou auxiliar ter comigo à porta do refeitório para lembrar-me que eu não podia entrar ali. Eu ia de braço dado com o meu pai e só queria garantir que ele chegava inteiro à cadeira, e preparar-lhe a comida, como se faz com as crianças, tirar as espinhas do peixe, descascar-lhe a laranja. Com bons modos, mas sem deixar margem para protestos ou pedidos especiais, apareceu sempre alguém para mandar-me sair porque só os doentes podem entrar no refeitório, as visitas estão proibidas de fazê-lo. A proibição justifica-se por razões de organização interna, espaço, ruído, etc. A razão principal só se sabe ao fim de alguns dias a passear pelos corredores: enquanto puderam entrar no refeitório, era frequente as visitas comerem as refeições destinadas aos doentes. Sentavam-se ao lado dos pais, avós, irmãos, maridos ou mulheres e iam debicando do seu prato, ou ficando com a parte de leão.

À minha ingénua indignação inicial, seguiram-se muitas histórias de miséria que ajudam a explicar como se pode chegar aí. Só quem, como eu, nunca a passou, demora a entender que a fome pode roubar tudo a um ser humano. Rouba-lhe a solidariedade até com os do seu sangue, a dignidade, o respeito, tudo aquilo que o faz ser gente. E pelo retrato que vi nesse hospital público do Porto, há fome nos nossos hospitais. Doentes que pedem ao companheiro do lado o pão que lhe sobrou, a laranja que não lhe apeteceu comer, a sopa que deixou a meio. Há quem diga que prefere comer um pão simples, ao lanche, para esconder na fímbria do lençol o pacote da manteiga ou da compota para mandar para os catraios lá de casa. Há quem não anseie pelo dia da alta porque, pelo menos ali, come as refeições todas. Há quem vá de mansinho à copa perguntar se dos outros tabuleiros sobrou alguma coisa que lhe possam dispensar.

Fica-se com um nó na garganta com tudo o que se vê e vira-se a cara para o lado com vergonha. Vergonha por ser parte disto, por não ter gritado o suficiente, por não ter sido parte da mudança que se reclama há tanto.

E depois estão os caixotes de lixo remexidos pela noite fora, as filas para as carrinhas de distribuição de alimentos, o passeio do albergue cheio de gente, gente que vagueia como sonâmbula, que discute por uma moeda de vinte cêntimos ou por um portal onde dormir. E estão ? a nossa maior vergonha ? as cantinas escolares que têm de abrir nas férias para garantir a única refeição diária de tantas crianças, as mesmas cantinas que sabemos que estarão encerradas à hora do jantar.

A fome reduz-nos à biologia, despoja-nos de qualquer ideal, impede-nos de dizer não ou de levantar um dedo acusatório, e será pela fome que, como num passado não tão remoto assim, procurarão dominar-nos.

Quando se fazem campanhas eleitorais distribuindo benesses sob a forma de electrodomésticos, medicamentos que a miserável reforma de um velho não pode comprar, ou mandando matar porcos para apaziguar a fome nos bairros sociais, o que aparece mascarado de acção solidária não é mais do que a manipulação despudorada da necessidade alheia, necessidade a que, aliás, estas pessoas foram sendo condenadas, por décadas de injustiça social, corrupção, gestão ruinosa, e todos os etcs. que conhecemos demasiado bem mas a que nem por isso somos capazes de pôr fim.

E se nos distrairmos ainda acabamos a apontar o dedo aos excluídos, a fazer contas ao rendimento mínimo do vizinho, a aplaudir o corte no salário, na pensão, no subsídio, como se a igualdade se fizesse rebaixando, como se a solução fosse difundir a miséria em vez de democratizar as condições para uma vida digna.

Confesso que sinto o imperativo moral de pagar uma refeição a quem ma pede, mas tenho dificuldades em lidar com essa pessoa. Porque quero que fique claro que a relação entre nós, se se pode chamar relação, apenas deve ser de respeito mútuo e, sendo certo que em qualquer momento futuro as nossas posições podem inverter-se, temos, um para com o outro, a mesma obrigação. Mas sinto-me sempre desconfortável com a mendicidade do outro, com a sua posição de aparente debilidade, com a minha ilusória superioridade.   A fome de uns é a fome de todos e já é hora de a sentirmos assim, mesmo que não nos aperte o estômago, mesmo que não nos roube a nossa dignidade.»

 -  Carla Romualdo

 

 

 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Herman José

Herman José

Posted: 19 Mar 2014 07:50 PM PDT

Herman José fez 60 anos. Todos lhe devemos algumas das nossas melhores gargalhadas. A vida deste país seria muito mais triste sem ele. E isso não é coisa pouca. É uma figura tão genial que até lhe perdoamos alguns registos de facilidade, bem como um anseio quase obsessivo da consensualidade, que às vezes desgostam. Mas Herman José é muito mais do que isso. E, até agora, é insuperável. Parabéns, Herman, vai ver que é agradável ser sexagenário, palavra que, contudo, começa bem mas acaba mal...

Lembrança

Posted: 19 Mar 2014 07:56 PM PDT

Ontem, numa esplanada na Foz, no Porto, lembrei-me de uma frase do meu pai. "Exilado" em Vila Real desde 1946, viveu por lá uma vida bem feliz, por mais de seis décadas. Mas nunca o abandonou a saudade do mar, da foz do rio Lima que o viu crescer, dessa Viana do Castelo que para ele funcionou como eterna âncora afetiva. "Gostava de acordar todas as manhãs numa casa com vista para o mar", dizia-nos, às vezes, embora soubéssemos que a ele, já transmontano de coração, far-lhe-ia muito mais falta a imagem do Marão ao fundo.
 
Li há pouco que hoje é dia do pai.

E depois da "troika"

Posted: 19 Mar 2014 01:38 PM PDT

Diz-se, às vezes, que, no nosso país, há conversa a mais e realizações a menos. Talvez seja verdade mas, pelo que me toca, saio sempre mais enriquecido desses exercícios intelectuais, particularmente se neles for possível ouvir atores responsáveis pelas políticas ou observadores atentos da realidade.
 
Tenho pena de não me ser possível assistir ao debate que, por esta hora, envolve Manuela Ferreira Leite, Bagão Felix, Teixeira dos Santos e Vitor Gaspar, no quadro da excelente iniciativa promovida pelo ISCTE sobre as políticas públicas, olhando já para o período depois do ajustamento. Deve ser curioso...
 
Hoje à tarde, serei um dos protagonistas de um outro debate. Com Diogo Feio, Pedro Silva Pereira e Paulo Rangel, estarei num painel em que a política europeia será abordada. Tenho esperança que possamos sair um pouco da "espuma dos dias" e ir mais além do mero confronto pré-eleitoral.
 
Em tempo: foi um debate sereno, muito construtivo, em que cada um de nós teve oportunidade de colocar o essencial da sua experiência. As divergências não foram muitas, embora não tivesse sido unânime a leitura das virtualidades do processo de ajustamento e do modo como o governo atuou e atua no quadro europeu. No essencial, porém, verificou-se uma grande consonância no reconhecimento da necessidade de uma postura interventiva portuguesa no palco europeu, bem como na importância de serem escolhidos como titulares da nossa representação a esse nível personalidades qualificadas. Todos lembrámos Medeiros Ferreira, o homem que criou os 3D da Revolução de abril (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Só que agora os 3D são outros: Défice, Dívida e Desemprego...

quarta-feira, 12 de março de 2014

Belmiro: "Não sei por que não deve haver economia baseada em mão-de-obra barata"

Empresário diz que, de outra forma, não há emprego. E deixa críticas à banca, dizendo que se travestiu.

 

Belmiro de Azevedo disse hoje no Clube dos Pensadores em Gaia que é "preciso acabar com o mito": "não sei por que não deve haver economia baseada em mão-de-obra barata. Senão não há emprego para ninguém".

 

O empresário sublinhou igualmente que "é preciso merecer seja que salário for. Há pessoas que não querem fazer esse esforço". Belmiro, que fugiu à pergunta sobre a subida do salário mínimo, acredita que "há muito quem viria para Portugal ganhar em espécie".

 

O pai de Paulo Azevedo [que lidera a Sonae] deixou também críticas à banca. "Depois de financiar o Estado e a actividade bancária, não sobra dinheiro para chegar à economia", disse.  "A banca travestiu-se", lamentou.

 

Questionado sobre a governação actual, referiu que "gostava que os nossos governantes não jogassem o jogo dos protestantes". "Quanto mais o governo sai, mais o espectáculo continua", lamentou Belmiro. "O importante é governar. Não se governa na rua", rematou

 

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/belmiro_de_azevedo_nao_sei_por_que_nao_deve_haver_economia_baseada_em_mao_de_obra_barata.html

 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Amor com amor se devia pagar. É bom lembrar: 27 de Fevereiro de 1953

 
 

Já tinha enviado, mas vale a pena relembrar a quem é muito esquecido

Este artigo tem um ano, mas merece uma revisão!
As diferenças de tratamento no pagamento de dívidas na época e as de agora.

É bom lembrar: 23 de Fevereiro de 1953...
Para que a memória não se apague… Fez agora 60 anos!

Faz 60 anos o acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs | Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha, Grécia e Irlanda.


O Acordo de Londres de 1953 sobre a dívida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essêncial da dívida.

A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra.Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% (Entre os paises que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920.

O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efectiva de pagamento.

O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substantial da dívida;
2. Reescalonamento do prazo da divída para um prazo longo;
3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.


O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida nao poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %.

A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida.

O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situacao de carência durante a qual só se pagaram juros.

Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos paises endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha.

Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de dívisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.

EM CONTRAPARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um superavit na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.

Hoje, pelo contrário, os países do Sul são obrigados a pagar o serviço da dívida sem que seja levado em conta o défice crónico das suas balanças comerciais

Marcos Romão,
jornalista e sociólogo. 27 de Fevereiro de 2013

 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

duas ou três coisas

 

 


"Aqui havia uma casa"

Posted: 20 Feb 2014 05:49 PM PST

Na minha infância, nas estantes da sala, havia um livro com um título que sempre me intrigou: "Aqui havia uma casa". A autora era Ilse Losa. Só anos mais tarde li o livro. Retratava a comoção de uma refugiada que regressa à sua casa de infância, que abandonou por virtude da guerra, e só encontra o espaço vazio no lugar onde nascera. Há dias, lembrei-me deste título.
 
No início da passada semana, numa montra em Londres, vi um sobretudo a um preço convidativo. Era um saldo. Entrei, negociei e comprei. Era necessários uns arranjos. Estaria pronto no dia seguinte.
 
Só pude voltar três dias depois. Entrei na rua e procurei a loja. Não a encontrei. Pensei ter-me enganado mas, por outras referências na área, concluí que estava no lugar certo. Pensei para comigo: "aqui havia uma casa" de roupa! De súbito, notei um espaço vazio, uma loja abandonada. Devia ser ali. Perguntei na vizinhança, mas ninguém se lembrava da loja. Mas que distração minha! Então eu não tinha o talão?! Claro que sim, só que o endereço nele indicado era... fora de Londres.
 
Pelo endereço, cheguei a um telefone. Começou uma longa saga. A certo passo, apareceu na linha alguém que sabia da loja desaparecida. Tinha sido um espaço alugado apenas para a época dos saldos. Fechara na véspera! E o meu sobretudo? Era difícil saber o seu paradeiro. "Talvez daqui a uns dias apareça", disse-me um cavalheiro, que me deixou um número de telemóvel e me pediu uma morada para onde "tentaria que o sobretudo fosse enviado". Tudo muito vago. Eu partia nessa noite para Lisboa; não podia ser ainda nesse dia? "Sorry! No way!"
 
Chegado a Lisboa, bombardeei a empresa com emails. Sem resposta. O meu único interlocutor respondeu, numa chamada telefónica, que... deixara de trabalhar na empresa. Mas que sabia que o assunto estava a ser tratado. Vi o caso mal parado. Sobretudo, vi o sobretudo cada vez mais longínquo.
 
"To make a long story short": o sobretudo (espero que seja o mesmo!) apareceu ontem! Uma semana depois. Um amigo cuidou de o ir buscar. Agora está em Londres, o que não dá jeito nenhum. Se alguém souber de um portador, ficaria agradecido. A sério!

Cova da Moura

Posted: 20 Feb 2014 03:55 PM PST

 
 
É uma sensação curiosa voltar a um local que conhecemos bem, que nos foi íntimo, e olhar em volta, notar as diferenças, as novas caras que agora o ocupam, o novo discurso que as atravessa. Aconteceu-me esta tarde, na mesma sala que a fotografia mostra, sentado àquela mesma mesa.
 
Não estive presente no momento retratado, em fins de abril de 1974, naquela que creio que foi a segunda aparição pública da Junta de Salvação Nacional (havia estado na primeira, na noite de 25 de abril, na RTP). Trata-se da sala de reuniões do palácio da Cova da Moura, que até então fora o Secretariado-Geral da Defesa Nacional e que se tornaria a sede da Junta. Na foto há muitas caras conhecidas, mas noto o meu amigo João Paulo Guerra, então repórter do "Rádio Clube Português".
 
Algumas semanas mais tarde, eu viria a ser chamado a trabalhar com a Junta, como assessor. Nessa qualidade, várias vezes estive naquela sala, na altura sob a alçada do gabinete do general Costa Gomes, que herdou o gabinete de António de Spínola, quando este se mudou para o palácio de Belém, depois de entronizado presidente da República.
 
Cerca de 20 anos depois, e por mais de cinco anos, em funções governativas, tive o gosto de vir ocupar esse mesmo gabinete, com esta mesma sala a servir-me para muitas reuniões, em especial para os encontros semanais da Comissão Interministerial dos Assuntos Comunitários (CIAC) - um exercício de coordenação com representantes de todos os ministérios envolvidos na vida europeia (apenas o Ministério da Defesa não tinha razão para estar regularmente presente). Um dia, Jaime Gama e eu decidimos atribuir àquela sala o nome de Ruy Teixeira Guerra, uma homenagem simples a um grande embaixador, um precursor da política de integração europeia de Portugal.
 
Passaram mais 20 anos. Regressei hoje uma vez mais àquela sala, para um debate, com um convidado estrangeiro, sobre o acordo comercial entre a UE e os EUA. Verifiquei que alguém, entretanto, se lembrou - bela lembrança! - de nela colocar, numa moldura, a fotografia que recorda a célebre reunião da Junta de Salvação Nacional. Sabe sempre bem regressar a um lugar que nos diz muito. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Má Despesa Pública: Vasco da Gama: até dá vontade de chorar só de olha...

Má Despesa Pública: Vasco da Gama: até dá vontade de chorar só de olha...: Não devemos esquecer aquilo que andamos a pagar e aquilo que os responsáveis públicos nos vendem quando se lembram de lançar obras - até...

Má Despesa Pública: Um país a comer bola

Má Despesa Pública: Um país a comer bola: Penamacor, concelho do distrito de Castelo Branco, tem 5.682 habitantes ( CENSOS 2011 ). Na terça-feira o Diário Digital noticiava q...

Optimus multada em 4,5 milhões no caso secretas.

O acesso ilegal aos registos telefónicos de um jornalista por uma funcionária da Optimus, a pedido dos serviços secretos, vai sair cara à operadora. A Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) decidiu aplicar uma multa de 4,5 milhões de euros à empresa de telecomunicações móveis. É a maior coima aplicada até hoje por aquela entidade.
Numa deliberação final concluída e aprovada a 14 de janeiro, a que o Expresso teve acesso, a Optimus é condenada pela prática de quatro contra-ordenações.
Depois de ter feito auditorias na empresa, e na sequência de uma notícia do Expresso que dava conta da espionagem aos registos telefónicos do jornalista Nuno Simas no verão de 2010, quando estes fazia parte da redação do "Público", a CNPD concluiu que a operadora não observou "as condições de tratamento e armazenamento de dados de tráfego" (coima de 1,5 milhão de euros), não observou "o prazo de conservação fixado" para esses dados (coima de 1,5 milhão de euros), e não conciliou "os direitos dos assinantes com a privacidade dos utilizadores" (coima de 1,5 milhões de euros) e não tinha as "medidas adequadas para o controlo dos suportes dos dados" (coima de três mil euros).
A funcionária da Optimus que acedeu aos dados do jornalista era mulher de um operacional do SIS (Serviço de Informações de Segurança), Nuno Dias.
Num processo-crime atualmente em fase final de instrução, o DIAP de Lisboa acabaria por confirmar uma investigação do Expresso em que foi revelado que o então diretor operacional do SIS, João Luís, pediu a Nuno Dias que providenciasse os registos telefónicos do jornalista, tendo depois fornecido esses dados a Jorge Silva Carvalho, na altura número 1 do SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa). Silva Carvalho procurava assim descobrir quem seriam as fontes internas aos serviços secretos que estariam a passar informações a Nuno Simas.
O então diretor do SIED viria a ser contratado mais tarde pelo grupo Ongoing, no final de 2010, dando origem a outras situações relacionadas com os serviços secretos consideradas ilegais pelo Ministério Público. Silva Carvalho, João Luís e o presidente da Ongoing, Nuno Vasconcellos, foram acusados no inquérito-crime do DIAP de Lisboa e aguardam agora uma decisão do tribunal de instrução criminal, prevista para março, para saber se vão a julgamento. Da acusação fazem parte os registos telefónicos obtidos ilegalmente na Optimus.

Optimus recorre para o tribunal



Em reação, uma fonte oficial da operadora considera "a decisão da CNPD totalmente infundada e despropositada e irá impugná-la" nos tribunais, acrescentando ser "lamentável que um caso que surge de uma ação de espionagem, que a Optimus ajudou a resolver descobrindo o prevaricador, tenha como consequência uma acusação à sua integridade e bom nome".
Numa resposta escrita ao Expresso, a Optimus diz estar "confiante na justiça portuguesa, pois cumpre e até excede todas as normas de segurança, sendo considerada atualmente  a melhor empresa do mundo no serviço ao cliente, o que atesta bem da qualidade e robustez dos seus sistemas". A operadora lamenta ainda "que, pela segunda vez consecutiva, a CNPD dê a conhecer à comunicação social as conclusões de um relatório que a empresa ainda não comentou, tratando com leviandade assuntos tão sérios".



Optimus multada em 4,5 milhões no caso secretas - Expresso.pt

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Não, a natureza não está zangada.

A minha mãe garante-me que a natureza está zangada com a humanidade. Eu gosto quando a minha mais-do-que-tudo-mais-velha diz estas coisas, porque o realismo mágico soprado por alentejanas faz parte da minha educação literária. O problema surge quando oiço pivots, comentadores e políticos a namorar a mesma léria para explicar de forma séria o mau tempo dos últimos dias. É assim a religião verde, um portento de realismo mágico que se julga um tratado científico. A natureza, dizem, está a castigar o homem devido aos pecados provocados pelo motor de combustão; estas tempestades só existem por causa da actividade industrial do homem. Ora, as parecenças entre este ambientalismo e o fanatismo religioso de outrora são impressionantes: em 1755, após o terramoto de Lisboa, muitos padres afirmaram que aquilo era um castigo de Deus. Como já vimos, a linguagem apocalíptica dos ambientalistas segue à risca esta forma de pensar. E o problema está aqui. Ao recuperarem a visão religiosa da natureza, ao transformarem a natureza numa divindade castigadora, os ambientalistas estão a pôr em causa os princípios racionais que presidem ao triunfo da ciência. 

1755 foi um momento fundamental no pensamento europeu. Após o terramoto de Lisboa, Deus deixou de contar para a explicação dos fenómenos naturais. Tendo o nosso Katrina como ponto de referência, homens como Kant estabeleceram para sempre a diferença entre o mal natural provocado por uma onda gigante e o mal moral provocado por um exército. É por isso que nós conseguimos distinguir entre Katrina e Guerra do Iraque. Parece óbvia e natural, mas esta ferramenta só estabilizou no século XVIII. E esta separação conceptual e moral entre Deus (mundo moral) e natureza (mundo natural) foi a chave decisiva para o avanço da ciência tal como a conhecemos: se a natureza não é a extensão moral de Deus, se não é Deus que movimenta os ventos da Stephanie, estamos então livres para explicar os fenómenos naturais através de um pensamento não-teológico, não-moral, um pensamento livre de constrangimentos religiosos e políticos. 

Não, a natureza não está zangada. Antes e depois do tubo de escape, a natureza não é a resposta aos nossos pecados. Deixem o realismo mágico na literatura.
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/nao-a-natureza-nao-esta-zangada=f855323#ixzz2t0KUvE90

AINDA A COMPRA DOS SUBMARINOS

Um comentador europeu dizia a um canal francês :

" Reparem o que aconteceu com o caso dos submarinos que envolve alemães, gregos e portugueses:

Na Alemanha prenderam 3 indivíduos , na Grécia prenderam 1 e em Portugal mandaram 1 deles para presidente da Comissão Europeia e o outro é o vice primeiro ministro do país"

Pensamento do dia

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Realidade

"Os pequenos factos inexplicados contêm sempre algo com que deitar abaixo todas as explicações dos grandes factos.

"Autor - Valéry , Paul

duas ou três coisas



duas ou três coisas



Saneamento

Posted: 06 Feb 2014 06:11 PM PST

Imagino que, para alguns jovens de hoje, o termo "saneamento" não ultrapasse a ideia de redes de esgotos e canalizações. Porém, se acaso tivessem vivido uma vida adulta após a Revolução de abril, saberiam que o termo foi então abundantemente utilizado para significar o afastamento forçado de pessoas de algumas estruturas e instituições, quer por alegadas ligações ao regime ditatorial quer, num momento subsequente, por acusações de resistência ao "processo revolucionário" então em curso. 

O caso do afastamento de mais de duas dezenas de jornalistas do "Diário de Notícias" foi um dos "saneamentos" que então gerou mais polémica. É que muitos dos "saneados" estavam longe de poderem ser qualificados de "fascistas", sendo apenas pessoas que resistiam ao controlo do jornal por uma linha muito próxima do PCP. Pode dizer-se que pelo DN passou então a fronteira da clivagem mais evidente no seio da Revolução. Nomes como José Saramago ou Luis de Barros emergiram, a partir daí, como os principais responsáveis por essa operação política, que ficou na história do jornalismo português.

Foi agora anunciado o lançamento de um livro que recolhe uma tese universitária sobre o tema. Atento o que se conhece sobre o nível da orientação académica do trabalho, deve esperar-se um texto rigoroso. Veremos se assim é. Alguma polémica em torno da utilização de uma imagem do jornal como capa está a funcionar como involuntária propaganda para o lançamento da obra, que irei ler com cuidado, como julgo que fiz com quase tudo o que se escreveu sobre aquela época.

Zita Seabra, a operosa editora da Alethêa, que publica o livro, aparece, uma vez mais, na linha da frente de uma iniciativa que, diga-se o que se disser, pretende confrontar os comunistas com o seu passado. Como "voyeur" regular desses tempos, só me posso congratular com o facto de novos dados virem à tona. Isso não teria, assim, nada de mal, não fora dar-se o caso dessa mesma Zita Seabra ter sido, à época, uma das mais ferozes e sectárias militantes do PCP. Reconheço o direito a que as pessoas mudem de opinião e assumam a sua distância face a um passado a que entendem já não deverem fidelidade. Mas acho que alguma maior contenção seria recomendável. Nunca é agradável ouvir um membro de um casal desavindo fazer revelações sobre a intimidade dos seus antigos tempos.

A ponte

Posted: 06 Feb 2014 11:10 AM PST

Começava a ser estranho! O avião chegara à Portela já há cerca de uma hora e nem sinais havia do advogado britânico que, nessa manhã, se deslocara a Lisboa para aquela reunião. E, por imprudência, ninguém na empresa tinha o seu telefone. Ter-se-ia perdido? Era a primeira vez que o homem vinha a Portugal e, infelizmente, não fora possível enviar um carro para ir buscá-lo ao aeroporto. Mas o trajeto era relativamente curto e, de taxi, bastaria, no máximo, um quarto de hora. Que fazer? Começar a reuniào sem ele? 

De súbito, um dos contactos do advogado na empresa recebe um telefonema. Era o homem! Vinha de taxi e informou: "Estou a chegar! Já estou a atravessar a ponte!"

Os taxistas do aeroporto de Lisboa são um dos "orgulhos" do nosso país.

Lembrei-me ontem à noite desta história, que alguém há dias me contou, ao sair do aeroporto de Lisboa para casa. Pelo caminho mais direto.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

PANGLOSS EM LISBOA, 2014






Todas
as vezes que começo estes artigos, a minha certeza é: “Lá vou outra vez escrever
o mesmo”. Olho à volta e vejo mil e uma coisas mais interessantes para escrever.
Por exemplo, sobre o Candide, de Voltaire, que estou a ler agora com
outros olhos.



Mas a coisa está tão
mal, que mesmo com o aviso do meu Grilo Falante para deixar o presente e falar
de passarinhos e nuvenzinhas e de como é belo o nosso Portugal, eu volto ao
mesmo. O país está a “dar a volta”, e eu “perturbado” “zangado”, “ressabiado”,
“ignorado”, “velho”, ou “infantil” conforme a idade do autor da classificação,
não vejo os excelsos “sinais da retoma” e o êxito à vista do “fim do
resgate”.







E, por isso mesmo, Cândido e o seu jardim e
Pangloss e a sua métaphysico-théologo-cosmolonigologie acabam a
desembocar nestes miseráveis dias de hoje, onde as pessoas de bem não podem
deixar de ficar zangadas com o exercício impante de hipocrisia que por aí passa
nos discursos oficiais, nos comentários oficiais, no mundo político-mediático
cheio de “responsabilidade” e “inevitabilidade” e vazio. Nuns casos, só vazio,
noutros, vazio interessado e interesseiro. . É, Pangloss estaria bem nos dias de
hoje, contando-nos a “narrativa” “positiva”, “optimista”, “aberta para o
futuro”, “cheia de esperança nas virtudes excepcionais do povo português”, da
actual situação nacional.







Ouvindo Pangloss, ouço-os a eles: de como
vivemos no melhor dos mundos possíveis, com os “sinais positivos da economia” em
cada esquina, com o fim do resgate a prazo, e a reconquista “plena” da “nossa
soberania”, com o estrangeiro, até há pouco tempo perverso e desconfiado com os
PIGS, agora cheio de admiração pelas virtudes do “ajustamento” português, com o
“admirável esforço dos portugueses” e a capacidade excepcional das suas empresas
“para dar a volta”. Ou seja, estamos mesmo no “fim do caminho”, a “dar a volta”.
Mas a “dar a volta” a quê? “Dar a volta para onde? “Dar a volta” para
quem?







É por isso que não vejo muita diferença entre o
que diz Portas, Passos Coelho, e Cavaco Silva e é repetido pela voz do poder.
Acresce que o PS de Seguro não conta como oposição. Mesmo a esquerda, ao
comportar-se reactivamente como um reverso do espelho do poder, não faz outra
coisa senão reforçar o discurso dominante, aceitando falar a partir dele, a
partir do seu quadro interpretativo, a partir da sua forma mental. O enorme
deserto do pensamento dos nossos dias vive dessa dualidade em que os temas, os
modos e os tempos são definidos pelo poder e “recusados” pela oposição, dentro
da mesma linguagem e aceitando muitas vezes os mesmos limites.



O discurso do poder hoje assenta num rito de
passagem. Estamos em 2014, o nosso ano da “libertação do resgate”, o nosso 1640,
o ano em que a troika se vai embora. Este é o tempo, que culmina com um
rito de passagem, porque o momento lustral de recuperação da “soberania” tem
data. Por isso, acentua-se o momento da “passagem”, para festejar um resultado e
anunciar uma nova aurora. É tudo ficção, porque não há nenhuma mudança
substancial a ocorrer em Maio de 2014, vamos continuar presos àquilo a que já
estamos presos, seja pela troika, seja pelo direito de veto de Bruxelas
aos Orçamentos, seja pelo Pacto Orçamental, mas é uma ficção útil, instrumental.
Festejemos.







Para que é que serve este tempo até Maio? Para
nos dizer que até lá temos que aceitar tudo, em particular esse Orçamento e as
suas sucessivas revisões, cujo conteúdo miraculosamente não entra no discurso
oficial, a não ser como o “instrumento necessário” para o fim do resgate, ou
seja, uma coisa neutra e menor. Discute-se e fala-se muito de uma coisa etérea,
os “sinais da retoma”, e quase nada sobre uma coisa dura e sólida, o Orçamento
que aumenta e muito a austeridade para 2014. Quando vejo alguém centrar o seu
discurso nos “sinais da retoma” já sei ao que vem, e já sei aquilo de que não
vai falar.







A natureza do Orçamento e o que ele nos diz
sobre o que se passou nestes últimos dois anos e o que se vai passar neste ano
de 2014 e no futuro são deixados em silêncio. E silêncio porque não encaixa no
tom congratulatório que tão útil vai ser para as eleições europeias e as
legislativas. Aliás, o silêncio sobre as motivações eleitorais que já estão
presentes na política do Governo é uma das grandes debilidades da análise presa
ao discurso do poder. Passos e Portas e, de modo diferente, Cavaco pensam e
muito nas eleições de 2014 e 2015, primeiro para as desvalorizar e assegurar que
vão ser inócuas quanto ao “ajustamento”, ou seja, não servem para mudar
políticas, depois para favorecer os partidos mais fiáveis para esse objectivo, o
PSD e o CDS, e o PS de arreata. O discurso sobre o “compromisso” tem igualmente
o objectivo de levar o PS a coonestar a interpretação governamental e
presidencial do “ajustamento” e torná-lo inócuo como factor de mudança em
eleições.







Depois de Maio, o discurso vai mudar. Vai-nos
ser explicado, a todo o momento, “que a austeridade” não pode acabar”. Findos os
festejos, ver-se-á se há ou não plano cautelar. A inexistência de uma discussão
séria sobre um possível plano cautelar, cujo conteúdo se ignora, é um bom
exemplo de como não há verdadeiro debate democrático no nosso espaço público. Se
o plano cautelar for para um ano, como disse Passos Coelho, ele terá a natureza
de uma continuidade da presença da troika por outra forma, e atirará para
quem governar em 2015 decisões que este Governo pretende cuidadosamente evitar
em ano eleitoral. Se for a mais longo prazo, disfarçado ou às claras, há que
exigir que vá a votos, coisa de que ninguém fala ou quer e percebe-se
porquê.







Depois, tudo o que não encaixa neste tempo e
nesta “narrativa” ou é meramente enunciado por obrigação, ou não tem papel na
interpretação. Aqui Portas, Coelho e Cavaco falam do mesmo modo. Diz-se umas
coisas sobre o sofrimento social, mas apresenta-se como um dano colateral
inevitável. Acima de tudo, não pode servir como elemento de uma política, apenas
como constatação de um efeito. O verdadeiro sujeito do discurso são sempre “as
empresas”.







Os “mais pobres” são protegidos pela
assistência do Estado e pela caridade, como argumento para atacar os rendimentos
dos que não são tão pobres, aqueles que “ainda têm alguma coisa”, que, esses
sim, são os alvos da política governamental, no assalto àquilo a que se chamava
“classe média”. Claro que não se diz aos mais pobres dos pobres, cujo papel
retórico é importante na legitimação da política governamental, que assim fica
garantido que nunca mais sairão dessa pobreza. E fica também garantido que muito
outros se lhes juntarão.







O reverso deste discurso é a propaganda, em que
muitos órgãos de comunicação participam, por folclore da “novidade” e
ignorância, dos “sucessos empresariais” dos que “dão a volta”, e fazem compotas
em casa ou móveis com lixo, ou vão fazer agricultura biológica. Para além de
nunca se voltar mais tarde, nem que seja um ano depois, para ver o “sucesso”
dessas microempresas, não se diz que pura e simplesmente, mesmo que algumas
tenham sucesso, são uma gota de água na desgraça geral e acima de tudo que não
são o caminho alternativo às fábricas que fecham ou aos milhares de funcionários
públicos que vão para a rua, nem ao desemprego eufemisticamente designado como
“de longa duração”. 







Em “colóquios” e “congressos”, em mensagens
televisivas, e nos repetidores habituais, este é o discurso do poder para 2014.
Nada de importante é enunciado, muito menos discutido, ou vai a votos, tudo está
pactuado dentro do círculo do poder estabelecido. E nós somos apenas paisagem.
Na verdade, diria Pangloss, “está demonstrado que as coisas não podiam ser de
outra maneira
”. “Tudo foi feito para um objectivo”: “os narizes
foram feitos para segurar os óculos, e por isso temos óculos
”, “as pedras
foram formadas para serem talhadas e para fazer castelos, e por isso Monsenhor
tem um belo castelo
”, e os “porcos foram feitos para serem comidos”,
por consequência, “aqueles que dizem que tudo está bem dizem uma asneira, é
preciso dizer que tudo está ainda melhor do que eles imaginam
”.



Vou ver se consigo para a semana falar de outra
coisa. “Cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin.” Pangloss
não me ajuda.

ABRUPTO

Francisco: um Papa muito "cool"!

A Igreja Católica estava mesmo a precisar de um homem como o Papa Francisco. 

Foram muitos anos de conservadorismo e moral exagerada vinda do Vaticano, muitos anos sempre a dizer que não a tudo.

A dizer que isto era proibido, e aquilo tinha de ser combatido, e aquelas coisas não podiam ser aceitáveis porque eram impuras, e coisas assim. 

Muito tempo a ouvir ordens, regras, Não, Não e Não e isso cansou as pessoas.
Nos últimos anos, já ninguém se interessava pelo Papa Ratzinger, pelo que ele pensava ou defendia, e eram muito poucos os que ainda o apoiavam.
A Igreja e o seu líder de Roma estavam cada vez mais pequenos, mais insignificantes, mais sozinhos, mais distantes.
E, de repente, surgiu Francisco, um Papa sorridente, humilde, com humor, bem disposto, mas sobretudo um Papa com um humanismo fortíssimo, que dá valor às pessoas, sejam elas quem forem, e não coloca as regras morais acima do coração.
Em poucos meses, Francisco já mudou radicalmente a imagem da Igreja e do papel do Papa.
Agora, já não temos um Papa que passa a vida a dizer-nos o que não podemos fazer, o que é pecado e imoral, mas um Papa que nos mostra como é possível a religião católica aceitar todos os seres humanos, sem uma norma imperativa que exclui muitos.
As suas palavras e as suas ações, seja para com as mães solteiras, seja para com os divorciados, seja para com os homossexuais, seja para com os pobres ou para com os ricos, são um sobressalto emocionante porque representam a coragem de uma mudança profunda, a única mudança que interessa.
É claro que a sua simpatia, a sua simplicidade, a sua boa disposição, ajudam muito, mas mais importante do que isso é a sua liderança nestes actos simbólicos e reais que demonstram a disponibilidade para uma Igreja diferente, que em vez de excluir passa a incluir, que em vez de rejeitar passa a abraçar, que em vez de dizer Não, passa a dizer Sim.
É claro que um homem assim espanta o mundo, e não é de estranhar que a esquerda, seja a europeia, seja a americana, esteja deslubrada com este novo Papa. A capa da revista Rolling Stone, que aqui reproduzo, e o artigo da Rolling Stone sobre o Papa, que aqui podem ler, são um reflexo desse deslumbramento.
E é natural que certa direita mais ideológica, na Europa e na América, esteja entupida e estupefacta com este Papa.
É sempre assim quando alguém muda as coordenadas que regeram o passado, e inventa novos caminhos para o futuro.
Porém, não me parece que seja justo classificar este Papa como um homem de esquerda ou de direita. O humanismo inovador de Francisco ultrapassa as classificações rápidas da política e da ideologia.
Ele prepara-se para mudar o mundo, e quando o mundo muda, mudam as coordenadas de todos, da esquerda ou da direita. 


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Europa deu 20 programas da troika à banca.

Um trabalho do jornalista Paulo Pena , da revista Visão, informa-nos de que a Europa gastou um décimo da sua riqueza (da nossa riqueza, contribuintes europeus de vários países) para salvar a banca. Conseguiu-o. À custa de verbas que correspondem a 20 vezes o empréstimo da troika a Portugal, mas conseguiu-o!
Podemos todos regozijar pela salvação da banca europeia, mas há um pequeno grande pormenor que gostaria de sublinhar muitas vezes: a Europa salvou os bancos à custa de inomináveis sacrifícios de povos (muito mais uns do que outros) e, sobretudo, à custa da sua própria saúde como espaço de cooperação e desenvolvimento.
Não esperem que eu reconheça que o esforço que Portugal fez não era necessário. Era e vai continuar a ser, porque as nossas contas, ainda que tenham timidamente melhorado, são negativas e insustentáveis; não esperem que eu afirme que o sistema social europeu não tem graves problemas (já parcialmente resolvidos em países como a Suécia, a Finlândia e a própria Alemanha) ou que negue a necessidade de, em plena globalização e ascensão de vários países que nos habituámos a ver como meros atores secundários, fazermos diversas reformas profundas. O que eu pretendo é precisamente o contrário. Foi por pensarmos que esta crise era apenas mais uma crise que preferimos os bancos às pessoas. Que, no limite (e até o caso de Chipre, quando os depósitos superiores a 100 mil euros foram também afetados), andámos a salvar ricos à custa da classe média e de pobres.
E esta é a situação intolerável. Não se trata de uma conspiração, mas de uma péssima interpretação dos sinais, própria de pessoas que não entendem a História e os seus sinais. Não é, de modo nenhum, o propalado neo-liberalismo (que entretanto se tornou num simples chavão insultuoso). É o estatismo mais escarrapachado: salvar instituições à custa de impostos. Por cá, tivemos o nosso BPN e o que mais se sabe...
Este caminho, além dos sacrifícios impostos, faz com que a extrema-direita lidere sondagens em França, que um palhaço ganhe eleições em Itália, que a extrema-esquerda grega tenha percentagens altíssimas, que uma espécie de fascismo se tenha abatido sobre a Hungria e ameace outros países que foram da órbita soviética.
Salvar a Europa seria mais importante do que salvar bancos. Mas começou-se pelos bancos. Vejamos se ainda se vai a tempo de salvar a Europa.

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Mission Impossible

Humor Financeiro Português

Praxes o país das histerias.

Henrique Monteiro


Eu não sei o que se passou na praia do Meco há 40 dias, mas devo ser um dos poucos cidadãos portugueses que o afirma sem reservas. Eu não sei se as praxes tiveram alguma coisa a ver com a morte de seis jovens universitários, mas muita gente à minha volta parece saber. Comentadores insuspeitos de arroubos mediáticos como Pacheco Pereira ou Vasco Pulido Valente discorreram sobre as praxes com se elas fossem o caminho direto para a degradação da juventude. E eu, uma vez mais, não sei se serão.
Sei que há praxes violentas e praxes engraçadas. Sei que há praxes humilhantes e praxes apenas risíveis. Sei, sobretudo, que no mundo esterilizado e assético a que a maioria parece aspirar, não há lugar para a folia, para o exagero, para a caricatura, para a troça. As praxes também são isto, como o Carnaval (festa que não é da minha simpatia) também é. Como na Idade Média mais funda, hoje o riso parece voltar a ser subversivo.
Eu nunca participei numa praxe nem nunca usei capa e batina, porque isso eram coisas de Coimbra. Em Lisboa, na Universidade de Lisboa, nada disso existia no meu tempo. Porém, a praxe e a capa e batina em Coimbra têm uma história que quem lá andou conhece melhor do que eu. A capa destinava-se a ocultar a proveniência regional e diferenças classistas entre os estudantes. A praxe era uma espécie de iniciação integradora dos mais novos (recém-chegados) pelos mais velhos.
Nada disto tem alguma coisa de mal. Há praxes militares; há praxes em clubes e associações e nas mais diversas profissões. Havia praxes nas redações de jornais. O mal foi a boçalidade que certas faculdades e Universidades permitiram. Ontem, o ex-diretor da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Porto e ex-presidente da ERC, Azeredo Lopes, escreveu no Facebook que aplicara restrições às praxes de tal forma que qualquer abuso das regras resultava em expulsão. Fez bem. É exatamente isto, e não as praxes em si, que se deve combater.
Mas nesta sociedade de manada e histeria (em certo sentido todas as manadas são histéricas e todas as histerias funcionam em manada) confunde-se tudo. Reparemos no tanto que já foi escrito e dito sobre o assunto; quase não há lugar para dúvidas. Desconfiava-se de um rapaz de quem se dizia que tinha amnésia e seria o Dux Veteranorum das praxes. Afinal, revela ontem a edição semanal do Expresso, esse mesmo rapaz foi salvo pela Polícia Marítima num estado de pré-afogamento. Afinal não tem amnésia nenhuma e fontes da PJ (o processo já está no célebre segredo de justiça de forma a se poderem dizer as maiores enormidades sem contraditório) dizem que será chamado em breve à investigação. A PGR diz que ainda nenhuma família se constitui assistente (ou parte acusatória) do processo
Mas as praxes, sejam elas quais forem, já são apelidadas de fascistas, de assassinas, de abjeções, de tudo! Isto é um país que há de ir do 8 ao 80, sem que quase ninguém reflita um milésimo de segundo sobre o significado das coisas. Há razões para haver praxes, ou pode haver (embora pessoalmente não simpatize com a coisa); há praxes que deviam ser proibidas pelas universidades e pela lei. Não por serem praxes, mas por serem atentados à dignidade ou à liberdade dos alunos. É apenas isto que está em causa, no caso das mortes do Meco terem alguma em concreto a ver com as praxes.
Porque é isso que não se sabe, embora seja isso que todos discutem.
Twitter:@HenriquMonteirohttps://twitter.com/HenriquMonteiro                       Facebook:http://www.facebook.com/pages/Henrique-Monteiro/122751817808469?ref=hl
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/praxes-o-pais-das-histerias=f852618#ixzz2rak3zway