Domingos Amaral
Em Portugal há uma célebre frase popular que diz: "quem não percebe a bem, percebe a mal". Assim foi durante quase dois anos com Paulo Portas, não o entenderam "a bem". Sempre que Portas tentou usar o seu poder positivo, foi ignorado por Passos e Gaspar. Foi assim na TSU, nos afrontamentos ao Tribunal Constitucional, na taxa dos pensionistas, no "aumento enorme de impostos". "A bem", dentro do Governo, Portas tentava persuadir Passos e Gaspar que esse não era o caminho certo. E "a bem", ninguém lhe ligava. O poder de persuasão de Portas revelara-se pois ineficaz. O PSD de Passos ignorava-o, humilhava-o, e pior do que tudo, não reconhecia o erro. Quando a carta de Gaspar é conhecida, na segunda-feira, gera-se um novo momento de possibilidade de mudança, mas Passos rapidamente mostra que nada quer mudar. Ou seja, que nada percebera, e nada mudaria "a bem". Ora, "quem não percebe a bem, percebe a mal", e por isso Portas passou do poder positivo ao poder negativo, demitiu-se e lançou um início de caos em Portugal. Com isso, arriscou tudo: a sua permanência no Governo, a sua popularidade crescente, a sua carreira política. Foi um jogo de alto risco, mas no final talvez tenha valido a pena. Confrontado com a sua eminente queda, que lhe seria fatal, Passos Coelho percebeu a linguagem do poder negativo de Portas de uma forma límpida. Ele, que sempre o ignorara, acabou a pedir-lhe para ficar, pois sabia que a saída de Portas seria o fim da linha. Não entendeu "a bem", mas entendeu "a mal". E o que fica depois disto? Bom, pelo menos a esperança que Portas consiga convencer a "troika" que muita coisa tem de mudar para Portugal sair deste buraco. Não se trata tanto de "bater o pé à troika", com trejeitos de toureiro, mas sim de persuadir a Europa a mudar linhas essenciais do programa do ajustamento. A "troika" não admite já baixar o IVA da restauração na Grécia? Porque não também por cá? Mudar de uma estratégia de "austeridade dura" para uma "amiga do crescimento económico" não será simples, nem fácil, mas vale a pena tentar. Pela minha parte, já aqui escrevi que a única forma da Europa resolver o problema das "dívidas soberanas excessivas" é através da "mutualização das dívidas", num fundo Europeu comum. Não haverá infelizmente crescimento antes de se arrumar a questão do peso brutal das dívidas. Mas, mesmo que isso não seja possível no curto prazo, é imperioso largar a "austeridade dura" e relançar a economia, pois não é com um milhão de desempregados que se pagam as dívidas do país. Aos críticos de Portas apetece relembrar a frase de James Carville, o estratega eleitoral de Bill Clinton: "é a economia, estúpidos"! |
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